Cantada na rua é assédio, sim! • Mãe de Adolescente

Sempre falei para a Gigi sobre cantada na rua, mas até aqui ela não fazia ideia real da coisa

Até pouco tempo atrás, a Gigi não andava na rua sozinha, então não fazia ideia de como era uma cantada de rua e do quão é ultrajante.

Ocorre que agora ela já foi vítima desta prática e já se deu conta de como é constrangedor e medonho e, portanto, já entendeu porque elas se tratam de assédio, sim.

CANTADA DE RUA 02

Mensagens trocadas com a Gigi enquanto ela estava indo ao mercado aqui por perto

A sensação de toda mulher ao andar na rua

Ontem, ao voltar do mercado, ela chegou bufando:

– Mãe, os caras não respeitam nada mesmo, não é? Teve um que parou e me ofereceu carona. Eu tenho quatorze anos. QUA-TOR-ZE. E os homens com idade para serem meu pai me cantando.

– É, filha. Agora você entende porque sempre me preocupei? Porque este cara só ofereceu carona, mas muitos outros estão dispostos a te forçar a aceitar de N formas.

– Sim, mãe. Agora tudo o que você me dizia faz muito mais sentido na minha cabeça.

O medo que toda mulher sente o tempo todo

No meio deste ano, Gigi se atrasou para voltar para casa e eu fui busca-la. Na volta, expliquei para ela porque o fato de se atrasar para voltar poderia coloca-la ainda mais em risco.

Comecei explicando que, ainda bem, ela ainda fazia ideia o que era sentir medo. E claro que eu esperava que ela jamais sentisse, apesar de achar pouco provável.

Falei de como, quando nos percebemos perseguidas, por exemplo, temos que pensar em N possibilidades de nos livrar e passamos a pensar se é melhor corrermos, gritarmos, ficarmos parada, deitarmos, etc.

E que a noite, o perigo aumenta porque não há tantas pessoas circulando na rua, não há tantos comércios abertos e, por força do escuro, é muito mais fácil alguém ocultar um crime.

Na época, apesar dela ter entendido e respeitado, ela ainda não contemplava a real condição destes momentos. Até aqui…

O senso de proteção seletiva

Para se ter ideia do tamanho do medo que até mesmo os homens tem por suas mulheres, não é admissível que mulheres andem sozinhas se o irmão, pai ou o marido puder acompanhá-las, protegê-las.

É uma convenção natural que quando a mulher comece a namorar, o namorado a leve até em casa, mesmo que depois volte sozinho, porque admite-se que o risco para ela é muito maior do que para ele.

Homens não andam nas ruas com medo de serem cantados ou estuprados.

Pais não se preocupam que os filhos homens possam ser vítimas de cantadas, assédios e estupros.

Claro que existem casos, mas a maioria absoluta é de mulheres vítimas.

E mesmo assim, mesmo com tantas evidências, há homens que ainda acham ok cantarem mulheres na rua, desde que não seja mãe, irmã ou namorada dele, óbvio.

A limitação da liberdade feminina

É incrível que as mulheres paguem o preço pela escrotidão masculina.

São elas que são vetadas de usarem as roupas que querem, porque senão homens se sentiram ainda mais no direito de invadirem o espaço delas.

São elas que são privadas de saírem caso não tenham com quem voltar, porque os pais temem pela segurança que homens ameaçam.

São elas, as meninas, que são “mal faladas” e “mal vistas” quando exercem exatamente os mesmos direitos que teriam os homens.

E também são elas que mesmo quando são vítimas de crimes sexuais, ainda precisam viver se explicando, porque estavam em tal lugar a tal hora, porque estavam com roupa X, etc, mesmo o criminoso sendo claramente o culpado, ainda uma boa parcela da nossa sociedade vai dar um jeito de inverter a culpa.

Cantada de rua é assédio, sim!

Sim! Cantada de rua é muito nojento e é assédio, mas ainda tem muito homem que acha que temos é que agradecer.

Na cabeça doente deste tipo de monstro, eles só estão nos elogiando.

Não fazem ideia o tamanho do medo, do constrangimento que uma simples olhada maliciosa dá, quanto mais uma cantada.

O mais escroto é que eles acham mesmo que tem licença para se comportarem assim e nós é que temos que aceitar e se reclamamos é “puro mimimi”, contudo se alguém mexe com uma mulher do convívio deles, aí sim, é desrespeito.

É lamentável ver que eles se sentem a vontade para fazer isto com as demais, mas com as deles, aí não pode.

Pois bem: não pode fazer isto com NENHUMA mulher, muito menos com garotinhas menores de idade.

Resumo

É mais do que urgente que a mentalidade mude e que homens achem normal mexerem com mulheres na rua, porque eles só colaboram para que estupradores se sintam com tal direito também.

Já passou da hora das nossas meninas terem o direito de transitarem sem se sentirem ameaçadas, ofendidas, ultrajadas.

Não é mais tolerável que homens se sintam ok em mexer com meninas, especialmente menores de idade, oferecendo carona com a nítida intenção sexual.

Chega a ser absurdo que em pleno 2017 ainda hajam tantas pessoas normatizando este tipo de comportamento deplorável e vergonhoso.

Se você é do tipo de homem que faz isto, pare agora mesmo. Se não é, não comece e mostre-se contrário quando vir algum outro homem, seja seu pai, irmão, filho ou amigo. Repreenda-o.

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About Author

Mãe da Gigi, trabalho com marketing, amo tecnologia e simpatizo muito com o lado nerd da cultura pop. Hard user de redes sociais, adoro escrever. Criadora do LogicaFeminina.com.br, colunista no EntreTodasAsCoisas.com.br e no Superela.com, também cuido de algumas contas de clientes por aí.