Mãe só tem duas • Mãe de Adolescente

O sol à pino, bacia de roupa na cabeça , a caminhada para o rio era de mais de um quilômetro e Odília grávida de praticamente nove meses.

Morava numa casinha no meio do nada em pleno sertão cearense com condições mínimas, mas era lutadora.

Eu tinha em torno de 4 anos e como não existia colégio naquela localidade, ela me alfabetizou usando apenas os conhecimentos de quem tinha estudado até a quarta série do primeiro grau, uma cartilha do abc e uma tabuada.

Depois inauguraram um colégio na região, mas só ensinava até a quarta série e ela não hesitou em me despachar agora com oito anos, para a casa de duas irmãs na cidadezinha mais próxima.

E isso se repetiu quando eu tinha quatorze anos e as escolas da cidade não mais me eram suficientes e mais uma vez fui morar em casas de tias na cidade de Fortaleza…

– Amor, a bolsa rompeu. (ok, já escrevi isto noutra crônica, mas não tenho culpa se ela cai como uma luva nesta aqui…)

E a tranquilidade zen de um monge budista baixou em mim:

– O QUÊÊÊÊÊÊ????? PERAÍ AMOR JÁ TÔ INDO PRA AÍ, PROFESSORA, TENHO QUE IR AGORA. MEU FILHO TÁ NASCENDO. E O MÉDICO? AMOR, JÁ LIGOU PRA ELE? CHAMOU A SUA MÃE? E AS COISAS, QUEM ARRUMA? POSSO IR PRO HOSPITAL? VOU PRA AÍ COM FAÇO O QUE FAÇO?

– Amor tá tudo bem, fique calm…

– EU TÔ CALMO, EU TÔ CALMO, MAS COMO FOI ISSO? NÃO TÁ NO TEMPO. JÁ TÔ INDO. SAI DA FRENTE FIDUMAEGUA! TÁ COM DOR? QUER IR LOGO NA FRENTE? JÁ FALOU COM MÉDICO? PIIIIIIIIIIIIIIII

– Amor, está tudo ok, não se preocupe e tenha cuidado. Estou te esperando…

Odilia era brava. Ninguém (no caso eu) era louco de desacatar uma ordem dela.

E certa vez cometi esta loucura, quando ela me chamou pra tomar banho e eu pra desobedecer corri pros braços do meu avô que morava numa casa a uns 50, 100 metros de distância.

– Dona Odilia, não bata no bichinho, não!

– Não, seu Manoel, pode deixar, eu só vou dar banho nele.

Não preciso nem dizer que quando voltei, ela já me esperava com um cipó de marmeleiro e, olha, aquilo DÓI.

Sabe o chicote do Zorro quando ele faz aquele barulho com a ponta? Igualzinho, só que era no meu lombo.

Depois disso, quando ela ia me dar uma chinelada eu já pegava a havaiana pra ela. Ela aliviava porque a lapada doia bem menos…

A Nida sempre estava preocupada por achar que não saberia cuidar adequadamente dos filhos. Sempre achava que poderia se doar mais.

Mesmo tendo cuidado do nosso primeiro filho sozinha por 5 meses, quando eu trabalhava em outra cidade e olha que nessa época coincidiu de nos mudarmos de uma cidadezinha do interior pra Fortaleza e como eu já estava trabalhando em Teresina, ela fez nossa mudança so-zi-nha.

Isso, a dezessete dias antes do parto. Cada “ai” que ela soltava era uma ameaça de infarto do motorista do caminhão da mudança.

Ela já aspirou vomito do bebê com a própria boca pra ele não sufocar. Já pegou barata com a mão pra tirar do berço dele. Já quase entrou em luta física quando soube que uma babá maltratava o bebê. Virou a noite incontáveis vezes tentando baixar a febre teimosa dos primeiros anos. Já chorou. Já brigou e, acima de tudo, amou. E se doou…

Na sua adolescência, Odília, junto com as irmãs mais novas, cuidava da roça, tirava leite do gado, cuidava da casa, não tinha sossego. Depois de casada, a rotina ficou mais desgastante ainda porque, além de tudo isso, ainda vieram os filhos. Mas ela jamais fraquejou.

Forte, valente, brava, mesmo com toda dificuldade, nunca nos deixou faltar absolutamente nada, nem material nem espiritual. E, com o tempo, acho que sabendo do dever cumprido, foi virando vó.

Virou a pessoa que todo filho queria ter na mãe, mas que só encontre nas avós.

Meiga, calma, conselheira, com um brilho nos olhos que transborda amor. O processo de santificação dela começou muito antes de ir pro céu e eu ainda vou curtir a minha santa mãezinha por muito tempo ainda.

Brigadão Deus… Com os filhos já praticamente adultos, Nida foi à luta pra recuperar o tempo perdido e em pouco tempo já tinha concluído uma graduação e uma especialização. Em moda, claro, porque a mulher além de linda tem um bom gosto que só me deixa mais e mais apaixonado.

E os filhos foram deixados de lado, mesmo adultos? Mas nem em pensamento. Continuam os termômetros, os remedinhos pra alergia, os abraços longos e cheios de carinho, a ajuda nas tarefas de casa, agora de faculdade e tem algumas novidades: os conselhos e colos agora são pra decepções amorosas dos filhos, as dificuldades no trabalhos, ela tá sempre a postos e sempre preparada.

Mas nunca perdeu aquela pontinha de insegurança que torna toda mãe humana, já que são, pra todos os efeitos, divinas… E um dia elas se encontraram.

Culpa minha que irremediavelmente dependente da dona Odilia, me apaixonei perdidamente pela Nida. E a junção dessas duas mulheres em torno dos filhos e de mim transformou a minha vida completamente.

Se sou realizado, se sou feliz, se amo, se me sinto amado como nenhum outro ser humano, a culpa e dessas duas. Eu amo vocês duas. Feliz dia das mães pra vocês. E feliz dia das mães pra todas as mamães do mundo!

(este texto foi entregue no dia das mães, para ser publicado no dia das mães, mas por conta da minha rotina corrida, só consegui fazer a revisão e edição dele para hoje)

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