Minha filha nunca foi uma princesa • Mãe de Adolescente

Minha filha nunca foi uma princesa

Não tenho reino, poder, nem nada que o valha. Jamais pude dar a ela nada próximo do que considero que ela mereça ou que seja o tal ‘do bom e do melhor’, portanto, minha filha nunca foi uma princesa.

Quando eu ainda estava grávida, Luciano e eu tivemos uma conversa: por mais que os tios, amigos, avós, padrinhos e outros pudessem dar bons presentes, nunca iríamos aceitar que os presentes deles fossem melhores que os nossos.

Não porque queríamos ser sempre os melhores, mas porque não queríamos que ela tivesse a impressão equivocada de que aquele era seu padrão de vida e aí criássemos uma pequena deslumbrada.

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Desde sempre fomos francos com a nossa condição, ao ponto dela pedir um chaveiro que acendia no Natal de 2006, aos 3 anos. O tal chaveiro custava tão barato que ficamos constrangidos de comprar apenas aquilo que conversamos com ela e dissemos que ela poderia pedir alguma coisa um pouco mais cara ou algo mais mas ela respondeu: “Então vou deixar vocês escolherem, mas eu quero o chaveiro que brilha, tá?”.

Contrariando a lição de 99% dos pais, fomos com ela até a loja de brinquedos e em meio a tantas ofertas os olhos dela brilhavam, mas ela já entendia que não poderia ter tudo, nem ali, nem na vida. E o tal chaveiro tornou-se uma analogia da vida para que ela entendesse o preço das coisas e o valor de nossos esforços: “Esta boneca é tão cara que 4 delas daria para pagar o aluguel do nosso apartamento, Gi”. Ela, meio que com carinha de dúvida sobre o que era aluguel, mas entendendo que era algo importante para que ela pudesse morar onde morava, respondia: “Nossa, eu gosto de morar lá e tem piscina e play. Melhor do que uma boneca que é igual a uma que já tenho. Só muda o cabelo e a roupa”.

Neste mesmo ano nos mudamos para uma cidade com custo de vida mais barato e nos livramos de algo que tirava muito de nossos ganhos, podendo viver um pouco melhor, por isso decidimos fazer uma festa para comemorar simultaneamente o aniversário de 4 anos da Gigi, nossa nova fase de vida, nossa casa nova que era muito maior e melhor que o apartamento que morávamos e o fato dela ter aprendido a ler e escrever em casa. Foi uma festa e tanto!

Não queríamos nunca que ela achasse que estávamos mudando nossas filosofias de vida, para que, caso as coisas voltassem a ficar difíceis, não tivéssemos que tirar dela todo aquele ar de “agora você pode tudo”.Mesmo assim, Gigi não foi uma princesa. Gigi escolheu o tema “Backyardigans” e eu comprei para ela um vestido combinando com a decoração, bem com cara de menina de 4 anos, mas nada de princesa.

Parecia uma profecia, pois um ano e meio depois Luciano foi assassinado e minha vida desmoronou. A empresa, que dependia dos conhecimentos técnicos dele para sobreviver, foi perdendo clientes, a pessoa que se prontificou a me ajudar acabou pegando para si os clientes restantes e eu passei a viver praticamente de favor do meu pai.

Gigi nunca viajou, nunca teve roupa da Lilica Repilica, nunca usou tênis de marca, nunca teve presentes caros. E agora é que não teria mais, mesmo. Além da dor de perder um pai tão presente, tão bom, tão dedicado, ela também teve que enfrentar a dor de lidar com uma mãe traumatizada, jogada na cama, incapaz de assimilar o que aconteceu e, claro, experimentar da absoluta pobreza financeira, aquela onde se não fossem avós e tios, ela poderia nem ter o que comer, onde dormir, o que vestir. E ela tinha só cinco anos.

Mesmo assim Gigi nunca se abalou, jamais deixou de sorrir e depois de alguns natais e aniversários sem ganhar presente nenhum da mamãe, repensei o acordo que Luciano e eu tínhamos de que o melhor presente sempre teria que ser o nosso:

Se fosse assim, ela teria passado uns 3 ou 4 natais e aniversários sem ganhar nada, pois eu realmente nunca podia dar nada de presente, a não ser um chaveiro que brilhava de R$ 5,00. Então claro que tive que rever isso e aceitar que os melhores presentes não viriam de mim, mas que eu teria que ensina-la que ainda assim, aquilo não seria o padrão de vida dela. Ensina-la a ser grata, mas nunca esperar e nem achar que fosse obrigação de ninguém.

A questão nunca foi quem dava o melhor presente, mas foi a importância de ensiná-la do que se tratam os presentes: cada um dá o que pode, o melhor possível. E também a ensinei, sem perceber, que é preciso que ela aprenda a lidar com as frustrações da vida, que elas existirão para todos e que para muitos, elas são tão difíceis justamente porque nunca tiveram dos pais a oportunidade e a confiança de que encontrariam o próprio jeito de encará-las e lidar com elas.

Hoje, Gigi tem 13 anos e, claro, é uma adolescente chata, mas não chega nem aos pés da chatice de 90% das demais pessoas que passam por essa fase, pois ela entende que não é nem nunca foi uma princesa e que a vida é cheia de ofertas que nos enchem os olhos e mais cheia ainda de “nãos” que nos enchem de frustrações, com as quais nós temos que lidar.

Agradeço todos os dias pela filhota que tenho, pela minha moleca companheira e cheia de consciência, pois é por conta disso que ela entende que é mil vezes melhor e mais vantajoso para ela ser resiliente, se adaptar e mudar a si, do que viver uma vida toda querendo ser especial e exigindo que o mundo mude tudo por onde ela passar ou que as pessoas finjam não ver o que veem, nem sintam o que sentem.

Só sei que quando eu morrer, seja hoje ou daqui 100 anos (espero que daqui uns 50), saberei que apesar de muitos presentes e roupas baratas, ela saberá se virar a qualquer situação, pois não se deixa abater pelas frustrações. Nesse caso, me considero orgulhosa por ter ensinado a ela uma lição que dói na alma das mães, por isso poucas encaram ensinar: “Minha filha não é nem nunca foi uma princesa”.

Me tornei mãe aos 24 anos, um ano após ter perdido a minha mãe. Tudo ia bem, quando aos 29, fiquei viúva de forma trágica e me vi como mãe solo. Aos 33, conheci o meu atual marido e aos 35, minha filha (com 10 anos na época) sofreu um acidente num pula-pula que a deixou 7 meses em uma cadeira de rodas e com grandes chances de sequela. Após dois anos do acidente, resolvi criar o blog e aqui estamos, vivendo juntas a emoção da maternidade durante a fase da adolescência. Mas não só isto!

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