O pai do Daddy * Mãe de Adolescente

O pai do Daddy

EU VOU!

O pai do Daddy

Era de manhã, tinha sol, mas na madrugada havia chovido.

A casa na fazenda tinha uma grande área cercada à frente e, junto à cerca, algarobeiras gigantes, que serviam de sombra, mas também era fonte se alimento para os animais. Junto à cerca estávamos eu, meu pai e meu avô.

Eles olhavam as vacas no curral próximo e eu as nuvens que ainda se formavam.

– O Brasil ganhou de novo…

– É, esse Pelé joga demais.

Eu tinha três anos quando do isso aconteceu, esta é a minha memória mais antiga. Depois disso, lembro de minha mãe me ensinando a soletrar as primeiras palavras e a fazer as primeiras contas de somar.

Mas aí eu já tinha 5, 6 anos e nessa época meu pai já me moldara a forma de pensar, de agir, de ser e não ser.

Ele sempre se deu absolutamente de corpo e alma aos filhos, abriu mão da vida que levava no interior para que fôssemos educados na cidade e nunca exigiu nada em troca, nunca vi ele reclamar de ter que me levar de bicicleta por mais de 15 km para a cidadezinha do interior onde eu estudava e que depois ele foi morar pra me acompanhar e levar minhas irmãs para também irem ao colégio.

E nem quando ele me trouxe para a capital, já que eu não tinha mais como evoluir na educação formal no interior ele reclamou saudade, embora os olhos dele me dissessem tudo.

E ele sabia que a nossa distância cobraria um preço alto: quando adulto, ainda voltei a morar na casa dos mais país, mas o tempo distante tinha nos afastado irremediavelmente e isso me parte o coração até hoje.

A falta que senti dele na minha adolescência me afetou também.

Desde esse período me tornei uma pessoa solitária, ensimesmada, não consegui mais me aproximar das pessoas, até que formei minha própria família e, como meu pai, mergulhei de corpo e alma nessa aventura, me doei por inteiro.

Meu pai é uma força da natureza:

Até hoje, ele nunca foi de muitas palavras, mas sempre foi direto até demais. Quando da vez que pisei no pé dele sem querer e ele me veio com um delicado “- vai pisar no pé do seu pai, fidicorno!”.

Veio desse dia a minha capacidade de segurar o riso nas situações mais engraçadas do mundo. Uma ótima forma de aprender é quando a sua vida está em jogo, vai por mim…

Na adolescência, claro, os conflitos tinham que aparecer e mesmo eu morando distante, quando nos reuníamos, sempre sobrava espaço para para discussões políticas, eu, identificado com os ideais de esquerda e ele com posições conservadoras a ponto de homenagear um presidente da ditadura me batizando com o nome dele.

Ele sempre acreditou numa sociedade justa, sempre foi a pessoa mais honesta com quem ja convivi e é um pacifista radical, mas o meio em que ele foi criado não permitiu que tomasse posições mais liberais.

Nunca bebeu uma gota se álcool e no dia em que ele soube que tomava minha cervejinha foi a única vez que o vi chorar.

Hoje já com idade avançada, todos os seus sentidos foram ampliados.

Ama os netos com nenhum outro avô e mais do que nunca passo bem longe do pé dele. Já na casa dos 70, ele se desdobra em tarefas que vão desde dormir sentado no tamborete na loja dele a enlouquecer a minha mãe quando insiste em varrer o quintal em pleno meio-dia de sol cearense.

Ele é ruivo e de pele quase albina. Pais são eternos. Acertam, cometem erros, são ternos, por vezes duros, mas nunca fogem da sua função de educar, formar nossa personalidade.

Somos nossos pais melhorados porque assim eles nos fizeram: tudo o que eles são nos transmitiram, mas filtrado, só nos entregando.o que eles tiveram e aprenderam de melhor.

Só isso explica uma ligação tão forte que me faz lembrar dele de forma tão cristalina desde os meus três anos de idade.

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