Como o filme REI LEÃO ajudou a minha filha a lidar com a morte do pai • Mãe de Adolescente

O filme REI LEÃO ajudou a minha filha a lidar com a morte do pai.

Parece besteira, mas o filme REI LEÃO ajudou a minha filha a lidar com a morte do pai dela, que foi assassinado durante um assalto.

Aliás, não só o filme Rei Leão I como também alguns outros filmes, como Irmão Urso I e II e o Segredo dos Animais.

Se quiser saber mais sobre a morte do pai da Gigi, leia o post “Como fiquei viúva“.

Tradições familiares

Quando a Gigi tinha 5 anos, em 2009, ainda não tínhamos internet na TV. Assim, ainda era hábito usarmos DVDs para vermos filmes.

Então sempre acabávamos vendo os mesmos filmes, todo santo dia.

O que não imaginávamos, era que estes mesmos filmes seriam providenciais para ela superar a perda do próprio pai.

Todos os dias, tínhamos a tradição familiar de assistir um dos filmes do DVD com ela antes dela dormir.

E todo santo dia, assistíamos ou Rei Leão I ou II, ou Segredo dos Animais, ou Irmão Urso I ou II, ou A Vaca foi pro brejo, entre outras meia dúzia.

Apesar de repetitivo, era divertido repetirmos as falas de que já sabíamos de cor, cada um do seu personagem representativo.

Também era comum cantarmos as músicas dos filmes no decorrer do dia com entusiasmo e alegria.

Eram bons tempos que guardo com tamanha delicadeza que chego a chorar ao me lembrar.

E quando o Luciano morreu, continuamos fazendo isto.

Mas a partir daí, as histórias passaram a ter outro significado para nós duas.

A dor da perda

Por força das circunstâncias da morte do Luciano, que me foram especialmente traumáticas já que eu estava presente no momento, muitas memórias imediatas são corrompidas.

Então eu me lembro apenas como contei para a Gi que o Luciano havia falecido e como ela reagiu na hora, me abraçando meio incrédula e ainda sem entender.

Nos dias seguintes, eu passei completamente prostrada e acamada e ela era a única coisa que conseguia me fazer levantar.

Quando finalmente consegui encarar a realidade, a via lidando bravamente com a dor da perda e da ausência de um pai tão presente e, ao mesmo tempo, seguindo a vida como tinha que ser.

Ela era, ao mesmo tempo, a menina alegre de sempre e a menina que sentia profunda dor pela perda do pai que jamais a deixou um só dia longe dele até então.

E a cada vez que assistíamos os nossos filmes, ela ia revisando a própria percepção da perda dela.

E comecei a perceber que ela pedia para ver Rei Leão I e II e O Segredo dos Animais com muito mais frequência que todos os outros.

Foi quando me dei conta de que ambos lidam com o mesmo que ela estava lidando: a morte do patriarca, do pai do personagem principal.

Algumas lições de Rei Leão I:

O ciclo da vida: Como diz a música inicial do filme, a vida é um ciclo e tem início, meio e fim. Assim, cada um tem seus momentos e também a sua hora de partir.

Olhe as estrelas: Mufasa diz ao Simba que o seu pai o ensinou que os antigos reis sempre estariam olhando por eles dos céus, porque se tornam estrelas.

Que as regras existem por um motivo: Na época, a Gi passou a perceber que muitas das regras existiam por um motivo e que geralmente este motivo era protegê-la.

Que nem todos os adultos são confiáveis: Ao perceber a ingenuidade do Simba com Scar, Gi passou a questionar o perigo de confiar em qualquer adulto sem questionar.

Que você é forte, mas não é autosuficiente: A Gi aprendeu cedo que apesar dela ser forte, ter certa autonomia para a idade dela, ela estava longe de ser autosuficiente.

Que você pode encontrar bons amigos onde for: Com Timão e Pumba, Gi aprendeu que bons amigos ajudam a amenizar nossas dores e traumas. 

HAKUNA MATATA: Aprender a lidar com as coisas de forma positiva, vendo sempre o lado bom, por mais difícil que seja.

Que sempre teremos a herança de quem somos: Por mais que sejamos diferentes dos nossos pais, ainda teremos eles em nós, queiramos ou não.

Que o passado pode doer no presente: Mesmo que superemos tudo o que passamos, ainda haverão momentos em que o passado vai pesar e doer em nós no presente.

Que devemos nos lembrar sempre de quem realmente somos: Podemos andar pelo mundo a fora, aprender o que for, mas não podemos nos perder de quem somos.

Perdoar e não se igualar a quem lhe faz mal: O perdão é libertador. Não para quem é perdoado, mas para quem consegue perdoar, pois alivia a carga de dor.

Que ser firme não nos faz insensíveis: Não precisamos ser rudes, nem grosseiros para sermos firmes. Podemos manter a firmeza com empatia e com sensibilidade sempre.

Que tudo tem uma ordem e um momento para acontecer: Apesar de querermos as coisas no nosso tempo, as coisas tem uma ordem e um momento para acontecerem.

Que a morte não é o fim: A morte pode cessar a vida material, mas ainda teremos as nossas memórias, aprendizados e legado de quem se foi.

A morte como parte da vida

Eu sei que para muitos pais, lidar com a morte é algo que faz mal aos filhos, mas eu penso justamente o inverso.

Quando o Luciano morreu, foram várias pessoas a me recomendarem não dizer à Gi que ele havia morrido.

Sugerirem dizer que ele havia ido trabalhar longe, que ele estava com problemas, etc.

Ao meu ver, todas as sugestões foram absurdamente sem cabimento, já que o Luciano era um pai presente demais.

Pensei em como qualquer uma outra explicação que não fosse a verdadeira iria fazer parecer que ele a abandonou.

Foi quando tomei a decisão de contar a ela sobre a morte dele.

Como contei sobre a morte do pai para a minha filha

Não foi nada fácil, mas eu decidi que era o certo.

Chamei-a sozinha no quarto, ajoelhei-me diante dela e falei:

Filha, o seu pai morreu hoje

– Ele foi proteger a mamãe de um assaltante e o bandido o matou.

Ela me abraçou com lágrimas nos olhos, mas ainda sem entender a dimensão do que estava ouvindo.

Era perceptível que a consternação dela era por conta do meu estado e não pela notícia, que ela ainda nem sequer entendia direito.

Não fez qualquer pergunta na hora e dedicou toda a sua atenção a mim nos dias seguintes.

Quando eu finalmente estava melhor e pudemos sair juntas (e sozinhas), ao chegar, ela me fez a primeira pergunta:

– Mãe, como este homem matou o meu pai?

– Com um tiro no coração

– Como foi o tiro, mamãe? Saiu sangue?

– E eu tentei ser o mais honesta possível, mas sem tornar aquilo uma cena de horror para ela.

Ela passou meses sem falar dele, até que um dia acordou e me pediu para ver fotos e para eu contar coisas que eu lembrava sobre ele.

Foi aí que criamos uma nova tradição para nós duas: os momentos de mãe e filha, onde falávamos sempre do que ela quisesse e geralmente eram sobre lembranças do pai.

Aprendi a confiar na capacidade dela de lidar com as situações reais

Depois disso, aprendi que era importante eu permitir que ela lidasse com as próprias dores.

Aprendi que ela é capaz de administrar seus sentimentos e quando não é, vai pedir ajuda.

Me arrependo amargamente de ter ouvido as pessoas e não tê-la levado à cerimônia de cremação do pai.

Ela me fala disso sentida até hoje.

Eu pensava estar fazendo o melhor por ela, mas hoje percebo que tirei dela um momento importante.

Se eu pudesse voltar no tempo, eu teria feito diferente.

Me tornei mãe aos 24 anos, um ano após ter perdido a minha mãe. Tudo ia bem, quando aos 29, fiquei viúva de forma trágica e me vi como mãe solo. Aos 33, conheci o meu atual marido e aos 35, minha filha (com 10 anos na época) sofreu um acidente num pula-pula que a deixou 7 meses em uma cadeira de rodas e com grandes chances de sequela. Após dois anos do acidente, resolvi criar o blog e aqui estamos, vivendo juntas a emoção da maternidade durante a fase da adolescência. Mas não só isto!

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