Hoje faz 10 anos que fiquei viúva :(

Nota — janeiro de 2026: escrevi este texto em 2019, quando completei uma década desde a morte do Luciano. Hoje já são 17 anos, e muita coisa mudou — mas a essência do que sinto continua aqui, intacta. Se quiseres ler como estou agora, escrevi sobre isso em 17 anos depois: como estou hoje.


Hoje, 14 de janeiro, faz 10 anos que fiquei viúva. Uma década de ausência, de saudade e de um sentimento de injustiça preso no peito.

Para mais contexto, leia o texto: Como eu fiquei viúva aos 29 anos

Muitas pessoas acham que quando uma mulher viúva se casa novamente, simplesmente passa uma borracha em tudo o que sentia pelo marido falecido.

Talvez isso possa ser verdade para algumas viúvas, mas para mim e para muitas outras com quem partilhei nestes dez anos, não é assim nem um pouco. A verdade é que acabamos encontrando um jeito particular de lidar com esses conflitos internos para que possamos conseguir continuar — apesar da dor, da saudade, da ausência.

Quero aproveitar para contar como foram estes 10 anos para mim.


Os primeiros momentos

Foram os momentos mais dolorosos e difíceis de toda a minha vida até hoje. Não apenas pela forma trágica e traumática como aconteceu (vide “Como fiquei viúva”), mas também pela dor intensa de se dar conta da morte real da pessoa que você ama, confia e compartilha.

Ver alguém morrer é inexplicável. Ver a pessoa que você ama, então, é algo pra nunca mais esquecer. É uma memória que eu carregarei até o fim dos meus dias e que, vira e mexe, eu ainda tento forçar a minha mente pra ver se não foi tudo um pesadelo.

Mas logo em seguida veio outra coisa bem ruim de lidar: perceber que não teria mais a pessoa com quem eu partilhava tudo para partilhar justamente a pior coisa da minha vida. Tudo o que eu queria ao chegar em casa era deitar nos braços dele e contar como foi o meu dia — mas eu não tinha mais ele lá, e nunca mais teria.

Adormeci no pé da cama, abraçada a um travesseiro, depois de tanto chorar.


A hora de contar para a filha de 5 anos que o pai dela morreu

O Luciano morreu às 17h00 em ponto. A Gi saía da escola às 18h00, enquanto eu estava entre o hospital para liberação do corpo e a delegacia para depor — então a minha irmã ficou incumbida de ficar com ela.

Como eu só saí da delegacia lá pelas 23h00, ela acabou dormindo na casa da minha irmã naquela noite.

Eu pude ficar sozinha — chorar, gritar com o travesseiro na cara, sofrer — sem me preocupar com o que ela pudesse ver ou ouvir.

No dia seguinte ela veio pra casa de manhã. Apesar de todos os conselhos para esconder dela o que houve e mentir que o pai tinha ido viajar, eu escolhi contar a verdade. E quis fazer isso sozinha.

Entramos no meu quarto. Eu ajoelhei até ela, coloquei as mãos nos ombrinhos dela, engoli a saliva como quem engole um caroço de manga, e falei:

— Filha, o seu pai morreu hoje. Ele foi proteger a mamãe de um assaltante e o bandido o matou.

Ela me abraçou com lágrimas nos olhos, mas ainda sem entender a dimensão do que estava ouvindo. Era perceptível que a consternação dela era por conta do meu estado — e não pela notícia, que ela ainda nem sequer entendia direito.

Não fez qualquer pergunta na hora e dedicou toda a sua atenção a mim nos dias seguintes.

Quando eu finalmente estava melhor e pudemos sair juntas e sozinhas, ao chegar ela me fez a primeira pergunta:

— Mãe, como este homem matou o meu pai?

— Com um tiro no coração.

— Como foi o tiro, mamãe? Saiu sangue?

Tentei ser o mais honesta possível, mas sem tornar aquilo uma cena de horror para ela.


As coisas foram se amenizando

Eu não comi por 8 dias — só tomava sorvete de vez em quando. Virei um zumbi de tão magra e deprimida.

Depois da Gi me pedir muito, comi algo e fui melhorando.

Foram tempos bem difíceis, mas com muito apoio da minha família e amigos, fui conseguindo ir “passando de fase”.


A chuva de lavar a alma

Certo dia, meu pai levou as crianças para a praia e a minha irmã foi junto. Foi a primeira vez que fiquei sozinha desde a morte do Luciano.

Tomei um banho, escolhi uma roupa que me caía bem e saí pelo bairro onde morava — e que foi onde tudo aconteceu.

No começo foi bem estranho, as pessoas me parando na rua com aquele ar de piedade, até que uma criança, sobrinha de uma amiga, veio correndo pro meu lado:

— Tia Tháta, me leva no salão de beleza pra encontrar minha tia Pri? Minha mãe não deixa eu ir sozinha.

Foi a primeira vez que alguém falou comigo sem tocar no assunto ou sem me olhar com qualquer traço de piedade.

Sorri e disse pra ela avisar a mãe que eu ia levá-la.

E fomos. No caminho, ela pediu pra comprar sorvete na padaria:

— Tia, eu tenho dinheiro. Eu pago um sorvete pra você.

Ao sairmos da padaria, de repente, começou uma chuva muito forte.

Ameacei voltar pra padaria, mas ela:

— Tia, vamos na chuva? Vamos, vai? Minha mãe nunca deixa, mas a minha tia fala que a chuva lava a alma.

Parecia um recado — e eu aceitei.

Foi uma chuva bem forte, morna e de lavar a alma. Eu até hoje não sei a explicação, mas aquela chuva, as risadas da sobrinha postiça (que também chama) Giovanna e as corridinhas que dávamos para atravessar as ruas foram um divisor de águas pra mim.


Namorar outra pessoa depois da viuvez

A sensação foi de culpa. Senti culpa por ter sido beijada, por retribuir, por gostar e por querer mais, por me sentir apaixonada por outra pessoa. Foi muito difícil.

Depois disso, namorei por um ano — e foi muito bom para nós, Gigi e eu.

Mesmo namorando, jamais deixei de lado a memória e a saudade do Luciano. Ele jamais foi deixado de lado. Sempre que a Gigi pedia, falávamos dele da forma mais alegre possível.

Pudemos sair da órbita e da cidade para ter longos períodos em uma cidade litorânea muito calma, onde a Gigi pôde ter um pouco de sua infância resgatada do mar de tristeza que as pessoas nos envolviam, mesmo sem perceberem.


A vida de solteira novamente — mas agora diferente

Depois de terminar o namoro, tentei aquela vida de solteira básica.

Obviamente fracassei miseravelmente. A maioria dos meus dias e noites era com a Gi, a BFF dela Nathy e a irmãzinha da Nathy, a Nay. A gente passava quase todos os fins de semana juntos.

Algumas vezes a Gi ia dormir na casa delas e eu saía com uma amiga, a Carol, que conheci no Twitter. Eu vivia sem grana, então vira e mexe ela pagava minha entrada — e para a sorte dela, eu não bebia, então era só a entrada mesmo.

Foram bons tempos. E foi numa dessas saídas que conheci o meu atual marido, o Dressler.


Um novo relacionamento — desta vez bem diferente

Conheci o Dressler em um barzinho durante o aniversário de um amigo.

Ficamos no primeiro dia e depois disso nunca mais nos desligamos.

Desta vez foi tudo diferente. Quando o beijei pela primeira vez, eu estava lá — com ele, sem culpa nenhuma.

Eu ainda vivia muitos momentos de saudade, de dor, de revolta pela morte do Luciano. Mas já sabia lidar melhor com tudo isso.

Uma das nossas primeiras conversas foi sobre exatamente isso. E foi incrível — eu me senti completamente à vontade para falar como me sentia.

Ele simplesmente entendeu tudo.

Não precisei disfarçar, refazer as falas, nada. Ele entendia que eu ia amar o Luciano para sempre — e que isso não me impediria de me apaixonar e amar outra pessoa.

E não impediu.

Passaram-se os anos. Em todos os aniversários do Luciano, nos aniversários da morte dele e mesmo nas datas aleatórias em que batia uma bad, o Dressler esteve do meu lado — sendo o meu colo e o meu melhor amigo.

Pude viver o meu amor simbiótico entre eles de uma forma plena, sem ter que comparar nem escolher.

E aqui estamos, juntos há 6 anos.


Este ano, a data de 14 de janeiro parece ter um ar estranho — diferente dos anos anteriores.

Confesso que estou tensa. Mas ao menos sei que tenho um colo para chorar e dividir o que sinto.

Que a memória do Luciano jamais se apague e que honremos sempre o seu legado.


FAQ — viuvez, luto e recomeço

É normal sentir culpa ao namorar depois da viuvez?

Sim, é extremamente comum. Muitas viúvas relatam sentir que namorar outra pessoa representa uma traição à memória do companheiro falecido. Essa culpa faz parte do processo de luto — e não significa que o amor pelo primeiro parceiro diminuiu. Com o tempo e, muitas vezes, com apoio emocional ou terapia, é possível integrar esses sentimentos e construir um novo relacionamento sem abrir mão de quem ficou na memória.

Como contar para um filho pequeno que o pai morreu?

Especialistas em luto infantil recomendam dizer a verdade com palavras simples e adequadas à idade, sem eufemismos que possam gerar confusão, como “foi viajar” ou “foi dormir”. A criança precisa entender o que aconteceu para começar a elaborar o luto de forma saudável. O mais importante é estar presente, responder às perguntas com honestidade e permitir que ela expresse o que sente, no tempo dela.

Uma viúva que se casa novamente esquece o marido falecido?

Não necessariamente — e na grande maioria dos casos, não. O amor não funciona em compartimentos fechados. É possível amar a memória de quem partiu e construir um amor real com outra pessoa ao mesmo tempo. O novo relacionamento não apaga o anterior: simplesmente coexistem, cada um com o seu lugar.

Quanto tempo dura o luto depois de perder o marido?

Não existe um prazo certo. O luto é um processo individual e pode durar meses ou anos — e mesmo depois de “superado”, ele ressurge em datas específicas, momentos inesperados ou fases da vida. O que muda com o tempo não é a ausência da dor, mas a capacidade de carregar essa dor sem que ela paralise tudo.

Ficam aqui, algumas fotos para ajudar a expressar um pouquinho de quem era o Luciano ♥

Ps: Eu te amo.

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