Há coisas que a maternidade não te avisa que vão acontecer. Ninguém te diz que um dia vais olhar para a tua filha e ver alguém que já não precisa de ti para criar — que já tem a própria voz, o próprio universo, a própria marca registada no mundo. Aliás, ela sempre deu sinais de empreendedorismo jovem, como nessa história em que ela foi com a amiga vender bijoux na feira, aos 13 anos.
Foi o que senti quando a Gigi me mostrou as primeiras fotos da nova coleção da Gigia.co.
Ela tem 22 anos. Estuda Publicidade na Belas Artes. E criou uma marca de moda do zero — com nome próprio, identidade visual própria, fotografia editorial própria, e uma atitude que é inconfundivelmente ela.
Este post não é uma review. Não é publicidade. É uma mãe que quer falar sobre o que significa ver um filho transformar quem é em algo que existe no mundo.
Quem é a Gigi — e o que é a Gigia.co

A Gigi cresceu entre duas culturas: brasileira de nascimento, cada vez mais portuguesa de coração. Cresceu a ver a mãe criar agências, a reinventar carreiras, a não parar quieta. E foi absorvendo tudo isso à sua maneira — que é muito diferente da minha.
Onde eu sou estratégia e processo, ela é intuição e estética. Onde eu penso em funis e dados, ela pensa em texturas, luz e atitude. E foi exactamente essa diferença que a levou a criar algo que eu nunca teria criado: uma marca de moda com uma voz visual tão forte que as fotos falam antes de qualquer legenda.
A Gigia.co é isso: uma marca jovem, independente, feita no Brasil, com uma identidade que mistura rock, streetwear, Y2K e uma certa brutalidade bonita que é muito característica de quem cresceu a olhar para o mundo com os olhos bem abertos.
“Live Fast, Die Young” — a nova coleção
O nome já diz tudo. E ao mesmo tempo não diz nada — porque este slogan, tão gasto em t-shirts de aeroporto, nas mãos da Gigi ganha outra camada.
Live fast, die young não é um manifesto de autodestruição. É uma declaração de urgência. De não adiar. De viver com intensidade enquanto se é jovem e ainda se tem a energia para isso.

A coleção é noturna, urbana, com referências aos anos 2000 que não são nostalgia — são apropriação. Couro falso, corsets estruturados, mini-saias com fivelas, luvas longas que transformam qualquer look num editorial. Peças que não pedem licença para existir.
O que me impressionou nas fotos não foram os looks em si — embora sejam muito fortes. Foi a consistência. A Gigi construiu um universo visual coerente: a paleta escura, o neon azul e verde do Brasil ao fundo, a luz baixa de boate ou rua vazia de madrugada, os ângulos que dão às raparigas um poder que não é agressivo, é apenas indiscutível.

Isso não se aprende na faculdade. Aprende-se vivendo — e tendo a coragem de pôr para fora o que se vive.
O que significa criar uma marca com 22 anos
Quando a Gigi me disse que ia lançar a Gigia.co, a minha reacção não foi “que bom”. Foi “tens a certeza?”. Não por falta de fé nela — mas porque sei, por experiência própria, o que é construir uma marca do zero. As noites. As dúvidas. O investimento antes do retorno. A vulnerabilidade de pôr o nome próprio em algo que pode falhar.
Ela sabia. E foi à mesma.
Isso é empreendedorismo jovem na sua forma mais pura: não é um curso, não é um projecto de faculdade, não é uma ideia que fica no papel. É uma marca com CNPJ, com produto físico, com campanha fotográfica, com identidade visual. É real.

O que aprendi observando este processo é que os jovens que criam marcas nesta fase da vida têm uma vantagem enorme que depois perdem com a idade: ainda não sabem o suficiente para ter medo. A Gigi não hesitou em usar o próprio nome. Não hesitou em escolher uma estética arriscada. Não hesitou em fotografar em São Paulo à meia-noite para conseguir a luz certa.
Essa coragem não é imprudência. É o melhor recurso que um jovem empreendedor tem.
O que esta coleção me ensinou sobre criar com identidade
Há uma coisa que quero dizer directamente às mães que estão a ler isto e que têm filhos com ideias, projectos, marcas a germinar: deixem-nos criar com a identidade deles, não com a que imaginaram para eles.
A Gigia.co não é o que eu teria feito. Os looks não são os que eu escolheria. A estética noturna e intensa não é a paleta acolhedora do meu blog. E é exactamente por isso que é dela — e é exactamente por isso que é boa.

Os adolescentes e jovens adultos que criam hoje têm algo que a minha geração não tinha: ferramentas de produção acessíveis, redes sociais como canal de distribuição directa, e uma audiência global disponível desde o primeiro post. O que falta, muitas vezes, é simplesmente um adulto ao lado que diga: vai. Mesmo que corra mal, vai.
Fui esse adulto para a Gigi. E estou muito orgulhosa de o ter sido.
Como apoiar um filho que quer empreender
Se tens um adolescente ou jovem adulto com ideias de negócio — seja moda, arte, tecnologia, gastronomia, o que for —, aqui estão as coisas que aprendi a fazer (e a não fazer) ao longo deste processo:
Fazer:
- Ouvir o projecto com curiosidade genuína, sem tentar “melhorá-lo” imediatamente
- Ajudar com as partes burocráticas que eles não sabem ainda: registos, impostos, contratos
- Partilhar os canais de divulgação quando o produto é bom — como estou a fazer agora
- Deixar que os erros aconteçam e sejam deles, não teus
Não fazer:
- Financiar indefinidamente sem accountability — o investimento tem de ter estrutura
- Comparar com outros negócios ou com o que “tu terias feito”
- Usar o projecto deles como extensão da tua identidade de mãe
- Subestimar a seriedade do que estão a construir por ser “coisa de jovem”
Se o tema da autonomia financeira e do primeiro emprego te interessa, lê também o nosso artigo sobre jovem aprendiz — porque a independência financeira dos nossos filhos começa muito antes da primeira carteira assinada. E se queres perceber como as plataformas digitais podem ajudar jovens a desenvolver competências para empreender, o nosso guia sobre apps educacionais para adolescentes e mães tem recursos práticos e gratuitos.

A nova coleção da Gigia.co está disponível em usegigia.com.br e podes seguir o universo da marca no Instagram em @gigia.co. Vale muito a pena.
Perguntas frequentes sobre empreendedorismo jovem em moda
Legalmente, qualquer pessoa maior de 18 anos pode abrir um CNPJ e lançar uma marca. Com apoio dos pais, jovens a partir dos 16 anos podem empreender com algumas restrições legais. O mais importante não é a idade mas a estrutura: produto definido, identidade visual, canal de venda e noção básica de custos e margens.
As formas mais comuns incluem poupança própria, apoio familiar com estrutura de empréstimo/investimento, pré-venda de peças antes da produção, e plataformas de crowdfunding. Começar com pequenas tiragens, testar a aceitação do mercado e reinvestir os lucros é a estratégia mais sustentável para uma marca independente no início.
Identidade, intenção e processo. Marcas jovens independentes como a Gigia.co constroem uma estética coerente, produzem em menor escala com mais atenção a cada peça, e comunicam directamente com a sua comunidade. Não competem com o volume das grandes cadeias — competem com a autenticidade e a conexão com o público.
São o canal de distribuição mais democrático que já existiu. O Instagram permite construir identidade visual, criar comunidade e vender directamente sem intermediários. A chave está na consistência estética — algo que a Gigia.co domina muito bem — e na autenticidade da comunicação. Uma campanha fotográfica bem executada, como a “Live Fast, Die Young”, pode ter o mesmo impacto de um editorial de moda profissional.
A linha é ténue mas existe: o teu papel é ser recurso, não director criativo. Podes oferecer conhecimento técnico (contabilidade, marketing, logística), divulgação genuína e suporte emocional nos momentos de dúvida. O que não deves fazer é tomar decisões criativas por eles ou transformar o projecto deles numa extensão do teu próprio ego materno. É difícil. Vale a pena tentar.
