Erasmus para brasileiros: é possível, como funciona e por onde começar

Erasmus para brasileiros? É possível! Vem comigo que eu te explico tudo!

Quando a minha filha Gigi entrou na universidade em Lisboa, o nome Erasmus começou a aparecer em todas as conversas do campus. Colegas portugueses a planear semestres em Espanha, italianos a candidatar-se para universidades holandesas, franceses a estudar em Berlim. Era como se existisse um passe mágico que abria as fronteiras da Europa para toda a gente — menos para os brasileiros.

Mas isso é um mito.

Brasileiros podem fazer Erasmus. E com a quantidade de famílias brasileiras que vivem na Europa, com filhos a estudar em universidades portuguesas, espanholas ou italianas, este tema tornou-se urgente e muito pouco explicado de forma clara. É exatamente isso que vou fazer aqui.

Este guia é para a mãe brasileira que ouviu falar no Erasmus, não entende bem como funciona, e quer saber se o filho — que está a estudar em Portugal, em Espanha, ou que ainda está no Brasil a planear o futuro — tem acesso a este programa extraordinário.

→ Se ainda está a avaliar os diferentes tipos de intercâmbio disponíveis para o seu filho, comece pelo nosso guia completo de intercâmbio para adolescentes.


O que é o Erasmus, afinal?

O Erasmus+ é o maior programa de mobilidade estudantil do mundo, financiado pela União Europeia. Desde 1987, já levou mais de 13 milhões de jovens a estudar, fazer estágios e desenvolver projetos noutros países europeus — com bolsas mensais que cobrem grande parte das despesas.

O nome vem de Erasmus de Roterdão, o filósofo holandês do século XV que viajou por toda a Europa em busca de conhecimento. A ideia é simples e poderosa: um estudante universitário passa um semestre ou um ano a estudar numa universidade europeia diferente da sua, mantendo o reconhecimento académico de todas as cadeiras feitas no exterior.

Não é um intercâmbio de férias. É um intercâmbio académico a sério, com bolsa, com créditos reconhecidos e com um impacto profissional comprovado.


Brasileiro pode fazer Erasmus? a resposta direta

Erasmus para brasileiros

Sim — mas com uma condição fundamental.

O Erasmus+ não é um programa aberto a qualquer pessoa com vontade de estudar na Europa. É um programa inter-institucional: a candidatura é feita através de uma universidade que tenha acordo de mobilidade Erasmus assinado com outra instituição europeia.

Portanto, para um brasileiro aceder ao Erasmus, precisa de estar matriculado numa universidade que seja elegível para o programa. Existem dois caminhos:

Caminho 1 — estudar numa universidade europeia Se o seu filho já estuda (ou vai estudar) numa universidade em Portugal, Espanha, Itália, França ou qualquer outro país da UE, ele tem acesso automático ao Erasmus através dessa instituição. A nacionalidade brasileira não é impedimento — o que conta é o vínculo institucional.

Caminho 2 — estudar numa universidade brasileira com acordo Erasmus Algumas universidades brasileiras têm acordos bilaterais com instituições europeias que permitem mobilidade semelhante ao Erasmus. Não é tecnicamente o Erasmus+ clássico, mas o mecanismo e os benefícios são muito próximos.


Os tipos de Erasmus que existem

Não existe apenas um Erasmus. O programa tem várias modalidades, e cada uma serve um perfil diferente de estudante.

ModalidadeO que éDuraçãoPara quem
Erasmus+ EstudosSemestre ou ano numa universidade europeia parceira3 a 12 mesesEstudantes universitários matriculados numa instituição elegível
Erasmus+ EstágioEstágio curricular ou extracurricular numa empresa europeia2 a 12 mesesEstudantes e recém-licenciados (até 12 meses após a conclusão do curso)
Erasmus+ Voluntariado (ESC)Serviço voluntário em projetos sociais, culturais ou ambientais na Europa2 a 12 mesesJovens entre 18 e 30 anos, independentemente de estarem a estudar
Erasmus MundusMestrado ou doutoramento conjunto em várias universidades europeias1 a 2 anosCandidatos de fora da UE, incluindo brasileiros — bolsa total disponível

O Erasmus Mundus merece atenção especial para brasileiros

Esta modalidade é a porta de entrada mais acessível para quem ainda está no Brasil. O Erasmus Mundus é um programa de pós-graduação conjunto entre várias universidades europeias, aberto a candidatos de todo o mundo — sem necessidade de já estar matriculado na Europa.

As bolsas Erasmus Mundus cobrem propinas, viagem, seguro de saúde e uma mensalidade de subsistência de aproximadamente €1.000 a €1.400 por mês, dependendo do país de acolhimento. É, sem dúvida, uma das bolsas mais generosas do mundo para pós-graduação.


Quanto vale a bolsa Erasmus em 2026?

Esta é a pergunta que todas as mães fazem a seguir. E a resposta é: varia bastante conforme o país de destino.

País de destinoBolsa mensal Erasmus+ (estudos)
Dinamarca, Irlanda, Reino Unido€600–€700
Alemanha, Áustria, Bélgica, França, Itália€500–€600
Portugal, Espanha, Croácia, Grécia€400–€500
Países do Leste Europeu (Polónia, Hungria, etc.)€300–€400

Além da bolsa mensal, a universidade de origem pode complementar com um subsídio próprio — e em muitos casos os programas cobrem também a isenção de propinas na universidade de destino.

Para o Erasmus Mundus, os valores são significativamente mais altos e a cobertura é total — inclui propinas, viagem de ida e volta, e subsídio de subsistência mensal.


Documentação específica para brasileiros

Este é o ponto onde muita gente desiste — por falta de informação, não por falta de possibilidade. A documentação para um brasileiro candidatar ao Erasmus tem algumas particularidades em relação a um candidato europeu.

Documentos base (exigidos de todos os candidatos)

  • Documento de identificação válido (passaporte ou bilhete de identidade se tiver cidadania europeia)
  • Certificado de matrícula na universidade de origem
  • Histórico académico com notas (transcript of records)
  • Carta de motivação em inglês ou na língua do país de destino
  • Carta de recomendação de um professor ou orientador
  • Comprovativo de nível de língua (certificado ou declaração da universidade)
  • Formulário de candidatura da universidade de origem (cada instituição tem o seu)

Documentação adicional para candidatos brasileiros

  • Passaporte brasileiro com validade superior a 6 meses após o término previsto do programa
  • Visto de estudante para o país de destino — a maioria dos países da UE exige visto para estadias superiores a 90 dias. Portugal, por exemplo, exige a Autorização de Residência para Estudante (ARI) para estadias superiores a um semestre
  • Comprovativo de seguro de saúde — o CESD (Cartão Europeu de Seguro de Doença) não está disponível para brasileiros sem residência legal na UE. Será necessário contratar um seguro de saúde internacional privado para a duração do programa
  • Comprovativo de meios financeiros — alguns consulados exigem prova de que o estudante tem recursos suficientes além da bolsa

Uma nota importante sobre o NIF e a conta bancária

Antes de partir, o estudante brasileiro precisa de abrir uma conta bancária num banco europeu para receber a bolsa. Em Portugal, o processo é relativamente simples — basta ter o NIF (Número de Identificação Fiscal) e um comprovativo de morada. Para outros países, o processo varia. Uma alternativa prática e imediata é abrir uma conta na Wise ou Revolut, que são aceites pela maioria das universidades para recebimento de bolsas.


Passo a passo: como candidatar ao Erasmus sendo brasileiro

Erasmus para brasileiros: é possível, como funciona e por onde começar - Adolescência & Comportamento

O processo tem etapas bem definidas e prazos que não se repetem — perder uma candidatura significa esperar pelo menos um semestre. Veja o mapa completo:

Etapa 1 — confirmar a elegibilidade (3 a 6 meses antes do prazo)

Entra no Gabinete de Relações Internacionais da universidade onde está matriculado e pergunta diretamente: “Quais são as universidades parceiras com acordo Erasmus? Quais os critérios de seleção internos?” Cada universidade define os seus próprios critérios — média mínima, número de candidaturas aceites por curso, etc.

Etapa 2 — escolher a universidade de destino (com antecedência)

Pesquisa as universidades parceiras disponíveis para o teu curso, verifica o catálogo de cadeiras disponíveis para mobilidade (o course catalogue) e confirma que as unidades curriculares que pretendes fazer são reconhecidas pela tua universidade de origem. Este passo é crítico — um mau planeamento académico pode resultar em semestres perdidos.

Etapa 3 — candidatura interna na universidade de origem

Preenche o formulário de candidatura interno da tua universidade, geralmente disponível no portal académico. Junta a carta de motivação, as recomendações e o histórico académico. Os prazos internos são, regra geral, em outubro/novembro para o semestre seguinte e em março/abril para o ano letivo seguinte.

Etapa 4 — nomeação e candidatura na universidade de destino

Se fores selecionado, a tua universidade de origem nomeia-te formalmente junto à universidade de destino. A universidade de destino envia então o formulário de candidatura oficial, que deves preencher com toda a documentação exigida.

Etapa 5 — tratar do visto (para brasileiros — começa cedo)

Este passo é o que mais demora e o que mais apanha brasileiros desprevenidos. O processo de visto de estudante pode demorar 2 a 4 meses dependendo do país de destino e da época do ano. Começa este processo assim que receberes a carta de aceitação da universidade de destino.

Etapa 6 — assinar o Learning Agreement

O Learning Agreement é o contrato académico que define exactamente quais cadeiras vais fazer no exterior e como serão reconhecidas na tua universidade de origem. Tem de ser assinado por ti, pelo coordenador Erasmus da tua universidade de origem e pelo coordenador da universidade de destino — antes da partida.

Etapa 7 — chegada, registo e recebimento da bolsa

Após a chegada, deves registar-te na universidade de destino, apresentar os documentos solicitados e preencher o formulário de confirmação de chegada. A bolsa começa a ser processada após este registo — habitualmente com um atraso de 4 a 6 semanas no primeiro pagamento, por isso é importante ter uma reserva financeira para as primeiras semanas.


A perspectiva da mãe: o que ninguém te conta antes

Quando a Gigi começou a explorar a possibilidade do Erasmus, eu estava em Lisboa há menos de um ano. Tinha trocado o Brasil pela Europa, estava a aprender a navegar num sistema completamente diferente, e agora a minha filha falava em partir para mais um país.

O que aprendi nesse processo — e que não está em nenhum manual oficial — é que o maior obstáculo para os brasileiros não é a burocracia. É a informação fragmentada.

Os gabinetes de relações internacionais das universidades portuguesas estão habituados a lidar com estudantes europeus. Quando um estudante brasileiro aparece com dúvidas sobre vistos, seguros de saúde privados e reconhecimento de documentos brasileiros, muitas vezes a resposta é um encolher de ombros e um “não sei, tens de verificar no consulado”.

O meu conselho prático: forma uma rede com outros brasileiros que já fizeram o programa. Os grupos de Facebook e os servidores de Discord de estudantes brasileiros na Europa são infinitamente mais úteis do que qualquer balcão oficial. Alguém já passou pelo mesmo problema que o teu filho está a enfrentar — e partilhou a solução.


O seguro de saúde: o ponto que os brasileiros frequentemente ignoram

Para estudantes europeus, o Cartão Europeu de Seguro de Doença (CESD) resolve grande parte da cobertura médica durante o Erasmus. Para brasileiros sem residência legal num país da UE, este cartão não está disponível.

Isso significa que o seguro de saúde privado é obrigatório — tanto para obter o visto de estudante como para garantir cobertura real no caso de uma emergência médica.

O que o seguro deve cobrir no mínimo:

  • Urgências médicas e hospitalização
  • Repatriação sanitária (custo elevadíssimo sem cobertura)
  • Consultas de clínica geral e especialidades
  • Urgências dentárias
  • Cobertura de saúde mental (cada vez mais exigida por algumas universidades)

Há seguradoras internacionais com produtos específicos para estudantes em mobilidade, com valores mensais que variam entre €50 e €120 dependendo da cobertura e do país de destino.


Universidades brasileiras com acordos de mobilidade europeia

Se o teu filho ainda está no Brasil e quer explorar este caminho, estas são algumas das universidades brasileiras com acordos de mobilidade com instituições europeias que funcionam de forma semelhante ao Erasmus:

UniversidadeAcordos notáveis
USP (Universidade de São Paulo)Acordos com universidades em Portugal, Espanha, França, Alemanha e Itália
UNICAMPParcerias com universidades em Portugal e Espanha
UFRJAcordos com universidades portuguesas e francesas
PUC-RioParcerias europeias em várias áreas
UFMGAcordos com Portugal, Espanha e Alemanha
FGVParcerias com instituições de gestão e economia europeias

Importante: os acordos mudam anualmente. Consulta sempre o Gabinete de Relações Internacionais da universidade específica para confirmar quais estão activos no momento da candidatura.


Erasmus vs. outras opções de intercâmbio para brasileiros: comparativo

ProgramaQuem podeBolsaCusto familiarNível académico
Erasmus+ EstudosMatriculado em univ. elegível€300–€700/mêsBaixoLicenciatura/Mestrado
Erasmus MundusQualquer brasileiro (pós-grad.)Total (propinas + mensalidade)Quase zeroMestrado/Doutoramento
Erasmus+ EstágioMatriculado ou recém-licenciado€300–€600/mêsBaixoLicenciatura+
High School14–18 anosSem bolsaAlto (€8.000–€22.000)Ensino médio
Au Pair18–26 anosSalário semanal + moradiaQuase zeroQualquer
Bolsas SantanderBrasileiros e portuguesesAté €2.500Candidatura gratuitaVários níveis

→ Lê o nosso guia completo de intercâmbio para adolescentes para perceber qual o programa mais adequado ao perfil do teu filho. → Se a opção for o Erasmus clássico e já está na Europa, lê o nosso guia completo do programa Erasmus 2026.


Afiliados: o que levar e o que comprar antes de partir

Há alguns itens que fazem uma diferença enorme na experiência de um estudante brasileiro a partir para o Erasmus — e que é melhor comprar antes de sair do Brasil ou de Portugal, onde os preços são mais acessíveis.

Essenciais práticos:

  • Rastreadores de bagagem AirTag ou equivalente — malas perdidas em voos de ligação são mais comuns do que se pensa
  • Adaptador universal de tomadas — cada país europeu tem padrões diferentes
  • Pasta organizadora impermeável para documentos — o Learning Agreement e os documentos académicos não podem molhar

Leituras que recomendo para preparar o coração:


Conclusão: o Erasmus está mais perto do que parece

Erasmus para brasileiros: é possível, como funciona e por onde começar - Adolescência & Comportamento

Quando comecei a escrever este guia, percebi que a maior barreira para os brasileiros que querem aceder ao Erasmus não é financeira nem burocrática — é a falta de alguém que explique o caminho de forma simples e honesta.

O programa existe. As bolsas existem. Os acordos entre universidades existem. O que falta, muitas vezes, é um mapa.

Se o teu filho está matriculado numa universidade europeia — especialmente em Portugal — a candidatura ao Erasmus é uma possibilidade real e acessível. Se ainda está no Brasil, o Erasmus Mundus ou os acordos bilaterais das universidades brasileiras são a porta de entrada.

O próximo passo é simples: entra em contacto com o Gabinete de Relações Internacionais da universidade dele ainda esta semana. Não esperes pela próxima candidatura — na maioria das universidades, os prazos abrem com meses de antecedência.

E quando ele partir — seja para Lisboa, para Barcelona ou para Berlim — respira fundo, dá o abraço mais apertado da tua vida, e sabe que esta foi uma das melhores decisões que tomaste como mãe.


Perguntas frequentes sobre Erasmus para brasileiros

Brasileiro pode fazer Erasmus?

Sim. Brasileiros matriculados em universidades elegíveis para o programa Erasmus+ — seja em Portugal, Espanha, ou qualquer país da UE — podem candidatar-se ao programa. A nacionalidade não é critério de exclusão: o que conta é o vínculo institucional com uma universidade participante.

Preciso de cidadania europeia para fazer Erasmus?

Não. A cidadania europeia facilita questões como o seguro de saúde (CESD) e o visto, mas não é requisito de elegibilidade para o programa. Brasileiros sem cidadania europeia precisam de contratar seguro de saúde privado e tratar do visto de estudante para estadias superiores a 90 dias.

Qual a bolsa média do Erasmus para um brasileiro em 2026?

Depende do país de destino. Para países do sul da Europa como Portugal e Espanha, a bolsa ronda os €400–€500 por mês. Para países do norte como Alemanha ou França, pode chegar aos €500–€600. A bolsa não cobre todos os custos — é um complemento, não um salário.

Quanto tempo antes preciso de começar o processo?

Para brasileiros, recomendo iniciar o processo com pelo menos 9 a 12 meses de antecedência. O processo de visto de estudante sozinho pode demorar 2 a 4 meses, e os prazos de candidatura interna nas universidades fecham muito antes do início do programa.

O Erasmus Mundus é diferente do Erasmus normal?

Sim. O Erasmus Mundus é um programa de mestrado ou doutoramento conjunto entre várias universidades europeias, aberto a candidatos de todo o mundo — incluindo brasileiros que ainda estão no Brasil. A bolsa é total: cobre propinas, viagem e subsistência. É a modalidade mais acessível para quem ainda não está na Europa.

As cadeiras feitas no Erasmus são reconhecidas no Brasil?

Depende da universidade brasileira. Algumas têm acordos de reconhecimento automático; outras exigem um processo de validação. Este ponto deve ser clarificado antes de partir, através do Gabinete de Relações Internacionais da universidade de origem.

Posso fazer Erasmus em Portugal sendo brasileiro?

Sim — e Portugal é frequentemente a primeira escolha dos brasileiros exactamente pela facilidade linguística e cultural. Para fazer Erasmus em Portugal, o teu filho precisa de estar matriculado numa universidade europeia que tenha acordo de mobilidade com uma universidade portuguesa. Se já está a estudar em Portugal, pode candidatar-se para ir a outro país europeu.

O Erasmus conta para o currículo?

Absolutamente. Estudos europeus mostram que estudantes com experiência Erasmus têm significativamente mais hipóteses de conseguir emprego internacional nos primeiros anos após a licenciatura. Em mercados competitivos, é um diferenciador real — não apenas um item no CV, mas uma prova de autonomia, adaptação e competência multicultural.