Escrevi pela primeira vez sobre esta data em 2019, quando completei uma década desde a morte do Luciano.
Podes ler aqui: hoje faz 10 anos que fiquei viúva. Caso ainda não saiba a maneira trágica como fiquei viúva aos 29 anos, leia aqui: Como fiquei viúva em 2009.
Hoje são 17 anos.
Não sei bem o que esperava sentir ao chegar nesta data com quase duas décadas de distância. O que eu sei é que o Luciano ainda é uma presença muito viva cá em casa — e que isso, longe de ser um problema, é uma das coisas que eu mais aprendi a valorizar com o tempo.
Antes de continuar, caso esteja passando por um momento delicado e com dificuldade de lidar com a dor, a saudade, o luto ou alguma questão, por favor, procure ajuda:
- Para leitoras do Brasil: CVV — Centro de Valorização da Vida
- Para leitoras de Portugal: SNS Portugal — Saúde Mental
O Luciano que não foi embora

Há uma coisa que eu nunca esperava que acontecesse quando comecei a atravessar o luto lá em 2009: que um dia eu seria capaz de sorrir ao falar dele. E sorrio. Muito.
Nas festas da minha família — que eram onde ele mais se divertia, aliás — vira e mexe alguém começa uma história que termina num riso coletivo. A memória dele não vive só no choro e na saudade. Vive também no barulho de uma festa, numa brincadeira que ele faria, numa situação em que alguém olha pro outro e diz “o Luciano ia adorar isso.”
E o Dressler faz parte disso de uma forma que me surpreende até hoje.
Há uns tempos, ele olhou para uma prateleira de chocolates e me perguntou: “Não era esta Amandita que você disse que o Luciano gostava e era cara?”
Eu fiquei parada por um segundo.
Porque sim. Era. E o Dressler guardou isso.
Não precisa de explicação mais longa: é o tipo de coisa que só acontece quando uma pessoa realmente te ouve, te respeita e entende que amar alguém que ficou na memória não é uma ameaça — é só parte de quem tu és.
A Gigi e o “Tio Lu” que as sobrinhas conhecem sem ter conhecido
O 14 de janeiro para a Gigi é um dia de resguardo.
Mais silencioso, mais dentro de si. Em algum momento do dia, a gente se encontra — ela e eu — e partilhamos aquele pesar com um pouco mais de peso do que nos outros dias.
Mas o que acontece depois é uma das coisas mais bonitas que já presenciei.
Porque o Luciano não é só uma ausência cá em casa. Ele é uma história que foi passada adiante.
As minhas sobrinhas — que nasceram depois da morte dele, que nunca o conheceram, que nunca o viram de perto — sabem tudo sobre o Luciano. Chamam-no de “Tio Lu”. Recontam histórias que ouviram. Fazem perguntas. Pedem detalhes.
Há qualquer coisa muito poderosa nisso.
Significa que ele não ficou preso só na dor de quem estava lá. Ele foi transmitido. Virou legado mesmo — não como discurso, mas como alguém que as pessoas gostam de lembrar porque era, aparentemente, impossível não gostar dele.
O luto mais solitário de Portugal

Vim para Portugal em 2023 e trouxe comigo as malas, o Dressler e o luto e as memórias também.
Mas há uma diferença que só senti depois de ter vivido aqui por algum tempo.
No Brasil, o luto pelo Luciano sempre foi coletivo. A minha família tinha — e tem — uma adoração genuína por ele. Quando o 14 de janeiro chegava, eu nunca estava sozinha naquilo. Havia mensagens, telefonemas, alguém que lembrava junto, partilhava junto, chorava um pouco e depois ria de alguma história.
Aqui, o luto ficou mais meu.
Não no mau sentido — mas no sentido de que as pessoas que partilhavam essa memória comigo de forma espontânea e física estão do outro lado do oceano. Os grupos da família ainda existem, as mensagens ainda chegam, mas não é a mesma coisa que estar num sofá juntas, com uma xícara de café, a lembrar o Luciano de perto.
O Dressler compensa isso com uma delicadeza enorme. Nunca aumenta. Nunca minimiza. Quando percebe que o dia está mais pesado, aparece com um chocolate, sugere uma saída para comer algo, propõe um passeio. Transforma o peso em algo mais suportável sem tentar apagá-lo — e isso, na prática, é exactamente o que eu precisava.
Mas seria desonesto não dizer que este é um dos custos silenciosos de emigrar: há lutos que se tornam mais solitários quando a tua rede de memória fica longe.
O que 17 anos me ensinaram sobre luto
Não vou fingir que tenho um manual. Mas há algumas coisas que aprendi na prática, que foram resultado destes anos todos, e que sinto que podem ser úteis para quem está a atravessar algo parecido.
O luto não tem prazo — e ninguém deveria impor um.
Dezassete anos depois, ainda há dias em que o peso aparece sem avisar. Não é sinal de que algo está errado. É sinal de que o amor foi real.
Falar do falecido em voz alta é saudável.
Durante muito tempo tive medo de mencionar o Luciano para não entristecer a Gigi, o Dressler ou a minha família. Com o tempo percebi que era o contrário: falar mantinha a memória viva de uma forma leve, humana. Deixava de ser tabu e virava presença.
Um novo relacionamento não apaga o anterior.
Continuo dizendo isso porque continua sendo verdade: amar o Dressler nunca significou deixar de amar o Luciano. São amores de naturezas diferentes, que existem em paralelo, sem competição.
Filhos precisam da verdade — no tempo deles, mas da verdade.
Contar para a Gigi o que aconteceu, com honestidade e com palavras que ela conseguia entender, foi uma das melhores decisões que tomei. Ela cresceu sem buracos na história, sem mistérios que pesam mais do que as respostas.
Pedir apoio não é fraqueza.
Se estiveres a atravessar um luto — seja recente ou antigo — não precisas fazer isso sozinha. O CVV oferece apoio emocional gratuito no Brasil, e em Portugal podes encontrar recursos de saúde mental pelo SNS.
O que fica
O Luciano foi embora num assalto, numa quarta-feira comum, aos 29 anos.
São 17 anos sem uma foto nova, sem ouvir a voz, a risada, sem saber o que ele pensa sobre os principais acontecimentos do mundo e da nossa vida. Mas o que ficou é muito maior do que o que foi levado.
Ficou a Gigi — que tem o sorriso dele e a teimosia dos dois juntos.
Ficaram as histórias que as sobrinhas, os irmãos, tios e tias, primos e primas recontam como se fossem delas.
Ficou a Amandita que o Dressler ainda reconhece na prateleira. Ficou a torta “lambeza” — era como a Gigi chamava a torta holandesa e até hoje não corrigi — que ele sempre deixava para ela na porta e, em seguida, tocava a campainha e se escondia.
Ficaram os 17 “14 de janeiros” que eu atravessei, cada um à sua maneira, e que me ensinaram mais sobre amor, perda e recomeço do que qualquer livro poderia.
E fico eu — que aprendi, devagar e com muito custo, que é possível carregar alguém para sempre no coração sem que isso me impeça de viver, de amar e de ser feliz.
♥
FAQ — luto, viuvez e recomeço
É possível superar a morte de um marido e reconstruir a vida?
Sim — mas a palavra “superar” talvez não seja a mais precisa. O que acontece, na maioria dos casos, é uma integração: a dor vai perdendo a intensidade aguda e passando a coexistir com momentos de alegria, recomeço e até amor. Não é esquecer — é aprender a carregar de uma forma que permite continuar a viver.
Como falar do pai falecido com os filhos?
Com naturalidade e verdade. Mencionar o pai em conversas do dia a dia, contar histórias boas, responder às perguntas das crianças com honestidade — tudo isso ajuda a manter a memória viva de forma saudável e evita que o falecido se torne um assunto proibido, que pesa mais do que os próprios sentimentos.
Como lidar com o luto sozinha quando a família está longe?
É um dos desafios silenciosos de quem emigra ou está longe da rede afectiva. Algumas estratégias que ajudam: manter o contacto com a família por mensagem ou chamada nas datas significativas, criar pequenos rituais próprios para honrar a memória, e apoiar-se nas pessoas próximas que estão fisicamente presentes — mesmo que não tenham partilhado a história.
Um novo parceiro pode respeitar a memória do primeiro marido?
Pode — e quando isso acontece, é transformador. Um parceiro que entende que amar alguém que ficou na memória não é uma ameaça, mas parte de quem tu és, torna o luto mais leve e o relacionamento mais honesto. Não é a norma, mas existe. E vale muito.
Quanto tempo é normal sentir saudade depois da morte do companheiro?
Não há um tempo certo. A saudade pode aparecer 17 anos depois numa prateleira de chocolates, numa festa de família ou num dia chuvoso de Janeiro. O que muda com o tempo não é a ausência da saudade — é a capacidade de a carregar sem que ela paralise tudo.
