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Quando eu falo que não nasci para ser mãe, as pessoas geralmente ficam chocadas e com um ar de revoltadas.

Provavelmente, esta revolta seja porque elas não entendem o que eu quero dizer com isto.

E provavelmente você possa ter ficado revoltada quando leu o título deste post.

As mulheres que nasceram para ser mãe

Conheço muitas mulheres que sonham com a maternidade desde sempre.

Que anseiam por cada momento, especialmente os da gestação, da fase bebê e da primeira infância.

Geralmente, essas mulheres criam expectativas de como serão como mães e de como serão seus filhos.

Sonham com as reações do pai, em como ele irá interagir com os filhos e em como tudo será perfeito e maravilhoso.

Elas também sonham com a rotina materna, romantizam cada detalhe e momento.

Eu não tive isto

Eu até pensava em ter uma filha algum dia, mas eu só pensava em como seria quando ela crescesse.

Foram poucos, os meus momentos de contemplação da maternidade antes de ser mãe.

Mas estes poucos momentos, faziam referência a ser uma mãe bem diferente da minha no que tange a relacionamento com filhos e em ser uma mãe parceira, presente e dedicada à formação do indivíduo.

E eu evitava ficar muito nesta vibe, primeiro porque eu não sabia se algum dia eu seria mesmo mãe, segundo porque eu não achava que nasci para ser mãe.

Eu não achava que tinha em mim, aquele tal instinto materno.

Era certeza que quando eu fosse mãe eu não saberia como proceder, diferente destas minhas amigas que já tinham tudo planejado há anos.

Aí engravidei…

Quando eu engravidei, as minhas preocupações eram todas práticas: como vai ser? E se ele não assumir? Onde vou morar? Como vou trabalhar e cuidar da criança? etc.

E eu não tive aquele vislumbre maternal que muitas mães relatam de, mesmo cheia de problemas, sentir que tudo ficaria bem.

Como eu trabalhava por contrato, comecei a me preocupar em como seria quando eu contasse da gravidez. E foi batata: não renovaram comigo.

Ainda bem que não fui abandonada, portanto tive uma retaguarda, podendo finalmente vivenciar a sensação boa da maternidade sem me preocupar tanto.

Finalmente, me senti mãe

Para mim, a tal sensação de maternidade não foi como muitas contam que é quase que uma mágica.

Tinham momentos em que eu sentia uma bruma leve da maternidade, mas eu estava tão ansiosa para ver minha filha nascer bem que nem sentia nada, além de ansiedade.

Um dos momentos que me lembro bem que me senti mãe, foi quando lavei e passei todas as roupinhas da Gi, antes dela nascer.

Me lembro de ter parado debaixo do varal lotado de roupinhas e pensado: “Esta será minha vida, a partir de agora” e sorri.

Fui preenchida de um sentimento tão terno e de uma completude que não me lembrava de ter sentido, até então.

Finalmente, me senti mãe.

Quando finalmente me tornei mãe

Bom, chegou a hora de nascer e eu estava lá, sentindo as contrações e pensando em fazer tudo para que ela nascesse bem.

Era a minha única preocupação, por isso me mantive calma e serena, mesmo diante de toda dor.

Quando ela nasceu, eu senti a mágica.

Ver aqueles olhinhos, aquela carinha, ouvir aqueles sonzinhos…

Foi mágico e transformador.

E eu percebi ali que eu não havia nascido mesmo para ser mãe.

Estava cheia de dúvidas e medos, mas preenchida de vontade de ser a melhor mãe que eu pudesse ser.

Eu não nasci para ser mãe, mas definitivamente me tornei uma e me empenhei e me empenharei todos os dias para ser a melhor mãe que eu puder ser.

Engraçado como em tudo a culpa é sempre da mãe, né?

Desculpem ter que dar essa notícia para vocês, pois não queria decepcioná-los, mas ser mãe não nos torna onipresentes, oniscientes e onipotentes.

culpa é sempre da mãe

“Nossa, vocês viram que fulana de 13 anos já tá namorando? A mãe dela deve ser muito descuidada.”

“Viu como os cabelos daquela menina estão bagunçados? Aff… Mãe desleixada, só pode.”

“Olha essa menina de 12 anos postando foto de shortinho curto e sensualizando. Cadê a mãe dela?”

Pois é… Sempre é culpa da mãe. A mãe que não cuida, a mãe que não liga, a mãe que não vê, a mãe que não educa.

Mas todo mundo se esquece de quando era adolescente e de quantas vezes a mãe foi apenas a trouxa da história, mesmo sendo cuidadora, antenada, esperta, pra frentex, amigona, autoritária, brava, meiga, perfeita, maravilhosa, super, master, etc, o que for.

culpa é sempre da mãe

Seja quem e como for a mãe, uma hora a filha vai aprontar algo, nem que seja algo básico, e alguém vai achar logo a culpada: a mãe!

Se a filha começa a namorar cedo e a mãe “permite” (entre aspas porque se a garota quer namorar, ela namora com ou sem esta tal “permissão”, sabemos) para tentar manter a filha perto: tá errada, porque tá sendo omissa.

Aí a mãe proíbe: tá errada, porque proibir não adianta, aí que ela vai namorar fora e aprontar mais ainda.

Resumindo: ser mãe já é uma tarefa complicada dentro de casa, mas a pior parte é e sempre será fora. Na boca das pessoas, mesmo as que também são mães.

Na verdade, ESPECIALMENTE as que também são mães e juram que suas filhas são santas (porque provavelmente não sabem o que as filhas fazem fora, mas ok, a gente perdoa porque todas somos trouxas mesmo).

Por isso que morro de medo de falar mal da filha dos outros e, claro, das mães dessas “filhas dos outros”. Porque eu não sei se tudo o que ensinei para a Gi vai valer para sempre ou se em algum momento ela vai conhecer um cara, se apaixonar e achar que tudo o que ensinei era babaquice e a única coisa certa é o que ele fala. Ou se alguma amiga vai convencê-la de que é legal fazer um perfil fake e umas fotos sensuais “porque ninguém vai saber” e aí um dia cai na internet e alguém retuíta falando “Cadê a mãe dessa garota?”.

Como falei no post anterior, eu acho que minha filha é a criatura mais incrível que já vi na face terrestre, mas não sei se isso é porque sou mãe (e trouxa) e muito menos, sei se isso durará para sempre.

culpa é sempre da mãeCada dia descubro algo novo sobre minha filha que nem ela sabia. Gostos novos, interesses novos. Vai saber como será daqui 1, 2, 3 anos? Vai saber se ela vai cometer algum erro, ainda que normal para quem é adolescente, mas que será perpetuado e imperdoavelmente relembrado eternamente na internet? E, claro: CULPA DA MÃE.

Por isso mesmo sempre relutei em escrever sobre “mães e filhas”. Por medo de acharem que estou tentando ditar regras ou ensinar alguém a ser mãe, sendo que essa nunca foi minha intenção. Aliás, ser mãe é algo que eu não sei como faz, mas vou aprendendo cada dia um pouco.

E hoje aprendi que uma hora posso ser eu a “mãe da vez” e ser massacrada com os “Cadê a mãe dessa menina?” sendo que infelizmente não tenho o dom da onisciência, onipresença ou onipotência.

Quem me dera, mas ser mãe é aprender a levar pedrada de todos os lados, porque sempre vai ter alguém achando que o que você fez não deveria ter sido feito, que era um absurdo, que isso ou aquilo.

E só para complementar meu desabafo, aí você pergunta: “Então o que você acha que deveria ter sido feito?”, as pessoas geralmente não sabem responder ou, se se atrevem, sugerem violência, sadismo, desumanidades e atrocidades descabidas e desproporcionais para os “delitos” dos filhos.

Eu ainda acredito na educação baseada em informação e empoderamento, que é bem diferente do foda-se, mas que aplica a teoria de ensinar com as próprias escolhas. Ensinar, estar ali do lado, ajudar a lidar com as consequências, o que não significa acatar e achar certo o que o resto do mundo fizer.

Ainda somos os adultos, portanto devemos agir como tal.