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EU VOU!

Li o texto “O prazer indescritível de perturbar” no BrasilPost, onde a autora descreve porque deixa sua filha gritar a vontade em qualquer lugar, mesmo sabendo que isso incomoda outras pessoas. Mas quando é que entra a hora de “educar”?

não-deixe-de-compartilharEm primeiro lugar, quero deixar claro que não pretendo ofender ou magoar a autora do texto citado, nem ditar regras.

A ideia é todos leiam ambos os 2 textos e encontrem seu meio termo, a sua maneira de educar seus filhos.

Ao que pude perceber, a autora fala de como é importante “perturbar o sistema vigente” e eu concordo.

É sempre bom e importante que tenhamos vontade de pensar por nós mesmos e até “em nós mesmos também”, de “gritar nossas necessidades e anseios”. Verdade.

No entanto, há momentos, modos e motivos para tudo.

Empatia

Como mãe, digo que ensinar minha filha a respeitar espaços públicos é uma questão de empatia.

É a minha oportunidade de ensina-la a pensar nos outros e em como suas ações os atingem e, assim, escolher ser alguém melhor.

 

Educar é muito mais do que “apenas deixar de ser”.

É ensinar que é inteligente saber a hora de falar, de calar, de gritar e que é importante saber respeitar a própria individualidade, mas com consciência de que os outros também são indivíduos.

É ensinar a pensar no coletivo sem abrir mão de sua individualidade. E deixar de gritar num restaurante não é, nem de longe, abandonar a individualidade e muito menos censurar as delícias da infância.

É ensina-los a terem empatia desde cedo.

Mas não pode gritar?

Pode, sim!

Dá para gritar em casa, gargalhar alto na praça, dá para gritar no escritório da mamãe enquanto ela escreve ou está ao telefone com o chefe.

Já que a mamãe não liga da filha viver gritando quando bem entende e acha lindo a filha perturbar sem a menor ideia do que é ser razoável.

Francamente, não sei o que algumas pessoas pensam de verdade sobre educar, mas fico refletindo como alguém que educa um filho e talvez a errada seja eu…

Educar é se envolver de verdade na formação do indivíduo, ensinando-o a lidar com as próprias frustrações.

Alguns comentários do texto “O prazer indescritível de perturbar”:

Educar não é cercear a liberdade, mas é ensinar que ela tem limitações, sim. Porque tem!

Aqui entre nós: nossos filhos também precisam se sentir incomodados ao incomodar os demais?

Será tão difícil assim apenas dizer:

“Filha, aqui tem muitas pessoas falando de negócios, pedindo em casamento, rompendo relações.

Não é legal gritar, pois são situações importantes, ok?

Vamos chegar em casa hoje e gritar no travesseiro até ficarmos sem voz?”

Aos 11 anos, Gigi sofreu um acidente em uma cama elástica, lesionando gravemente a região epifisária do tornozelo

O que é região epifisária?

A região epifisária só existe até a formação óssea, pois é uma parte cartilaginosa por onde os membros crescem.

No caso da Gi, houve a ruptura completa, separando totalmente a epífese do osso, o que é considerada lesão de grau grave, nestes casos.

Este tipo de acidente pode causar sequelas, mesmo com o tratamento correto, pois depende de como o corpo do adolescente vai reagir.

A notícia

17 de Maio de 2014, sábado. Aniversário de 3 anos da minha sobrinha. Gigi foi com o meu pai e eu ia em seguida, de moto.

Para a festa, foi contratada uma empresa especializada, com brinquedos como pula-pula e cama-elástica.

Quando eu já estava no portão, meu telefone tocou. Era meu pai dizendo para eu ficar calma e seguir até a Santa Casa.

Óbvio que a última coisa que eu fiz foi ficar calma. Fui correndo, sem pensar em nada.

Como aconteceu

A monitora da cama-elástica tinha 12 anos, amiga de escola da Gigi. Como a Gi chegou cedo, só estavam elas, então então a Gi a convidou para brincar junto

Foi quando, durante o salto da Gigi, a menina entrou na cama elástica, fazendo um “buraco” e foi quando a Gigi caiu com o peso do corpo todo por cima do tornozelo.

Algo que nunca pensei que seria possível acontecer, era alguém sofrer um acidente grave em uma cama elástica.

Mas aconteceu e logo com a minha filha.

A saga e as más notícias

Como a Gigi foi levada para a Santa Casa de Suzano e foi encaminhada para internação para aguardar cirurgia, ela não podia sair de lá sem ter internação garantida em outro hospital.

De pronto, fomos consultar outras opções. Algumas, de pessoas que indicaram no twitter, outras de amigos, parentes.

A frase que o médico repetia, era: “Mãe, vai ter sequelas”.

Um carinho sem tamanho a enfermeira de joelhos pra botar acesso na Gigi pra ela operar.

Uma foto publicada por ThatuNunes (@thatununes) em

Me identifico muito com a mãe da Isabella Nardoni no que tange à forma de lidar com a perda trágica – e injusta – de alguém.

Quando houve o julgamento do caso Nardoni, eu estava há dias de testemunhar no julgamento pelo assassinato de Luciano – meu falecido esposo.

Prestei atenção a cada detalhe e uma coisa me chamou atenção: ao fim de tudo, as pessoas comemoravam como se fosse uma final de futebol.

Diante da euforia popular, Ana Carolina Oliveira, mãe de Isabella Nardoni, mostrou-se consternada com aquilo:

Não há o que comemorar. Três famílias estão se desfazendo hoje. Uma criança está morta e duas estarão privadas de conviverem com seus pais, além de carregarem um fardo e um estigma para sempre“.

Não me lembro ao certo as palavras, mas era algo neste sentido e que me tocou muito.

Dias depois aconteceu o julgamento do assassino do meu marido. As palavras de Ana Carolina ecoavam na minha mente.

E assim que foi dada a sentença, meu mundo desabou de vez.

Até aquele dia eu tinha em que me agarrar, algo para o qual lutar: a condenação do assassino. Depois da condenação não me sobrou nada.

Só a realidade de que dali para a frente a vida e as pessoas passariam a me cobrar igual a quem jamais passou pelo que passei.

Era tudo ou nada!

Ou eu superava ou eu teria que viver dentro de minha condição de vítima, de “viúva sofrida”. Eu teria que escolher entre ser forte ou fraca. Entre enfrentar ou me submeter.

E foi nessa hora que perdoei Rogério, não porque sou boa, mas porque eu não queria viver com essa âncora que é o rancor, o ódio, a necessidade de vingança. Nada mais eu poderia fazer, então era hora de cuidar de mim, da Gigi e seguir em frente.

E foi Ana Carolina, a pessoa que me inspirou a agir com resiliência, com espírito leve, com coração manso. Foi ela que me inspirou a superar.

Muito obrigada, Ana Carolina Oliveira. E que sua vida seja cheia de felicidades, pois você salvou a minha de ser uma vida amargurada.

O desafio do enforcamento sempre existiu entre os adolescentes mesmo antes da internet e dos jogos eletrônicos.

Como em toda tragédia que envolve jovens, as mídias apontam a culpa para a internet e os jogos, sendo que estes desafios do enforcamento sempre existiram.

A culpa não é da internet. Nem dos jovens. Nem dos vídeo games. Nem dos pais.

A culpa, na verdade, não é exatamente de algo ou alguém. Talvez, a irresponsabilidade, típica da juventude, em desafiar perigos sem medir consequências.

O fato é que o desafio do enforcamento como tantos outros já aconteciam antes, então há outros fatores a serem considerados.

Querem um exemplo? A tão famosa roleta-russa! Querem outros? Os desafios de altura. Querem mais? Os desafios com facas. E assim vai…

O desafio do enforcamento, na verdade, é apenas uma nova versão de tantos desafios e brincadeiras perigosas.

 

Desserviço da mídia

E o meu post não é para isentar a internet ou os jogos de vídeo game, até porque eles realmente não tem nada a ver com isso mesmo.

É para alertar o tamanho desserviço que as mídias fazem, cada vez que insinuam ou mesmo colocam a culpa na internet ou em jogos eletrônicos por ocorridos como este.

A cada vez que alguém acredita que o problema esteja na internet ou nos jogos, um jovem pode estar sendo negligenciado, pois os olhares não estão de fato onde deveriam estar.

Com isto, os sinais que deveriam ser notados são esquecidos, ao invés de lidarem melhor com o comportamento dos seus filhos durante interação com amigos, seja virtual ou pessoalmente.

Foco nos filhos e nos sinais

É muito importante que nós, pais, estejamos atentos ao que realmente importa: o comportamento e a interação dos nossos filhos com os amigos e com o mundo.

Não há problemas em filhos que preferem jogos eletrônicos e internet à uma interação presencial com amigos, desde que isso não esteja atrapalhando suas atividades e desenvolvimento, claro.

A questão não são jogos ou internet, mas quais são os limites que um jovem estaria disposto a ultrapassar para impressionar os amigos.

É importante percebermos no que nossos filhos se submetem – ou não – em prol de se sentir parte do grupo. Quanto isto pode custar a ele, porque pode lhe custar a vida.

Neste caso, sequer dá para dizer que existam culpados e, sim, uma cadeia de fatores combinados que culminaram nesta tragédia. E é nestes fatores que devemos focar.

Que Gustavo descanse em paz, seus pais encontrem conforto e seus amigos possam aprender com a tragédia.

Eu ainda não tinha visto o último vídeo da campanha #TipoMenina, da Always, até que a Gigi me pediu para ver e escrever sobre, por se sentir representada.

 

“Mãe, olha esse vídeo. Você pode escrever algo sobre isso no seu blog? Tem um monte de mães e pais de meninas que acham que futebol é coisa de menino e se você escrever, talvez ajude-os a entender melhor”.

Esse foi o pedido da Gigi para mim ontem, após ver o vídeo da campanha #TipoMenina da Always.

E antes que alguém me pergunte: não, isso não é um #ad (infelizmente, porque eu adoraria que fosse, claro) e nem uma fanfic.

Gigi e eu conversamos muito, como minhas leitoras e seguidoras bem sabem, e um assunto recorrente é como ela se sente ao jogar futebol.

Para ela é relativamente fácil, pois minha restrição é referente ao acidente em que ela quebrou o tornozelo, há dois anos.

Mesmo assim, ao ver como ela estava feliz, entregue e empolgada com o futsal, deixei.

 

Eu não me lembro de ter comentado algo sobre ser esporte de menino, mas se em algum momento ela se sentiu representada pelo comercial, creio que ela tenha ouvido ou percebido algo nesse sentido em algum lugar.

Sendo assim, penso que a campanha seja válida, sim, para ajudar tantas outras meninas a se fazerem entender diante de seus pais, avós, amigos, tios, professores, mostrando que elas são fortes, que elas são capazes e que, acima de tudo, são donas de suas próprias escolhas e das consequências delas.

Temos que aprender a ser orientadores e não donos do destino de nossos filhos, que foi algo que tantos da nossa geração e das gerações anteriores sofreram, por terem os pais determinando a profissão, o que deveriam estudar, com quem se casar, etc.

Penso que seja através de sinais como este da Gi, que me apontou algo que a fazia sentir-se empoderada e, portanto, também apontando o que a incomoda, que podemos evitar os mesmos erros que os nossos pais, ainda mais por conta de nossos preconceitos. Deixemos que nossos filhos nos ensinem a sermos os pais que gostaríamos de ter tido.

#TipoMenina #LikeAGirl

Aproveitando o ensejo, também quero dividir com vocês uma outra campanha de absorvente, agora da marca Libresse (nunca ouvi falar), que foi incrível:

Estava na padaria do meu antigo condomínio, quando vi uma cena que me inspirou a escrever 5 dicas para não ser inconveniente com o filho dos outros

A mãe e o pai na fila do pão com seu garoto de uns 3 anos.

Ele vinha com algo na mão, acho que um carrinho: “Mãe, eu quero”. A mãe negou com a cabeça e ele foi ao pai: “Pai, compra?”. “Você já tem todos da coleção”, respondeu o pai. “Guarda de volta”, orientou a mãe.

O menino guardou, mas começou a abrir a vitrine de pães doces, pegar várias bandejas, pedir, apontar as rosquinhas e os pais, irredutíveis, diziam que não e para ele não mexer.

Ao passo em que finalmente conseguiam controlar o filho, uma senhora diz: “Nossa, o que custa comprar alguma coisa pro menino?”.

O pai: “Custa dinheiro e custa que ele precisa aprender a ouvir ‘não’ e respeitar”.

A senhora, ao invés de se colocar em seu devido lugar: “Pode escolher algo, menino. Eu pago”.

Nessa hora, a mãe que se mostrava serena até então, vira e diz: “Não, Leonardo, não pode pegar, não! E a senhora, se quiser estragar filho dos outros, arruma uns netos. O meu, não”, enquanto puxava o menino para perto de si.

A senhora, incrédula pela firmeza dos pais, ainda tentou se fazer de senhorinha simpática, mas era nítida a reprovação de todos diante da postura de desrespeito diante daqueles pais.

Mal sabe ela o mal que ela fez. Bastaria perceber o olhar do menino para com os pais, como quem os culpasse por seu insucesso na tentativa de conseguir levar algo, fosse o que fosse, só para se sentir vitorioso.

Naquela hora, essa senhora criou mais um, dentre tantos motivos normais, para uma desavença entre pais e filho. Por pura falta do que fazer ou de noção de inconveniência. Então, por favor, não seja jamais essa pessoa!

Agora, seguem 5 dicas para não ser mala e não estragar a educação dos filhos alheios:

1) Jamais ofereça comida a uma criança sem antes consultar os pais.

Esta lição é por conta de que muitas crianças são alérgicas e, justamente por isso nunca comem algumas coisas, aí um estranho oferece e cabe a mãe, diante da criança, impedi-la de comer e vem aquela sensação de “Nossa, minha mãe não me ama. Todas crianças comem, mas eu não posso”. Ao invés disso, sem que a criança perceba, pergunte discretamente para a mãe se pode oferecer. Se ela sinalizar que sim, ok. Se não, é não e pronto.

2) Nunca desfaça uma regra dos pais ou castigo dos pais.

Os pais tem regras ou castigos tem motivos e razões. Caso você as considere inadequadas, converse em particular com os pais, argumente e tente que eles desfaçam as tais regras e os castigos. Nunca fale com eles diante das crianças ou, pior, desobedeça regras ou castigos quando os pais não estiverem. Quando você faz isso, acaba dando a eles a sensação de que longe dos pais tudo bem não obedecerem regras e isso pode acabar causando problemas sérios mais tarde.

3) Não convide a criança para nada antes de falar com os pais

Minha mãe chamava esse tipo de pessoa de “Gente que inventa moda”. E é bem isso mesmo! Sabe aquele tio que antes de falar com os pais, chega pra criança e fala: “Hoje vou ver com sua mãe se ela deixa o tio de levar pra pular de uma montanha”. Aí a criança fica empolgada, ansiosa e o tio fica sendo o legalzão e, se por acaso a criança estiver de castigo, doente, não for uma boa hora ou simplesmente a mãe acha o passeio ou atividade inadequados, pronto. A mãe que vira um monstro. E está criada mais uma animosidade entre pais e filhos.

4) Não diga ‘SIM’ para tudo, mas tenha jeito para dizer ‘NÃO’

Não é porque você está cuidando ou diante do filho de outra pessoa que essa criança pode tudo e acabou. Pelo contrário, o que é NÃO, é NÃO. Só que é preciso ter “trato” para dizer não aos filhos alheios, pois se a criança for muito mimada, ela vai chorar e os pais vão odiar você por isso. E caso ela não seja, óbvio que os pais vão entender seu não, desde que ele não seja um não agressivo, opressor, hostil. É apenas um “NÃO” e pronto. Só.

5) Não proteja uma criança à outra

Seja justo! Se existe mais de uma criança no local, lide com elas de forma igual e equilibrada. Claro que se uma fez errado, dê a bronca, mas não deixe nem incentive que a outra tripudie disso. Ao contrário, tente fazer com que a outra entenda que também é importante ela se manter na linha, pois você está de olho. Sem tom de bronca, caso ela não tenha feito nada errado. Em tom de aviso, mas que fique claro. E depois da bronca, por favor, não mantenha o clima pesado, ruim, nem nada. Tente não perpetuar a culpa, para que eles se sintam motivados e manter tudo bem e não o inverso.

Não tenho reino, poder, nem nada que o valha. Jamais pude dar a ela nada próximo do que considero que ela mereça ou que seja o tal ‘do bom e do melhor’, portanto, minha filha nunca foi uma princesa.

Quando eu ainda estava grávida, Luciano e eu tivemos uma conversa: por mais que os tios, amigos, avós, padrinhos e outros pudessem dar bons presentes, nunca iríamos aceitar que os presentes deles fossem melhores que os nossos.

Não porque queríamos ser sempre os melhores, mas porque não queríamos que ela tivesse a impressão equivocada de que aquele era seu padrão de vida e aí criássemos uma pequena deslumbrada.

Off Topic

Desde sempre fomos francos com a nossa condição, ao ponto dela pedir um chaveiro que acendia no Natal de 2006, aos 3 anos. O tal chaveiro custava tão barato que ficamos constrangidos de comprar apenas aquilo que conversamos com ela e dissemos que ela poderia pedir alguma coisa um pouco mais cara ou algo mais mas ela respondeu: “Então vou deixar vocês escolherem, mas eu quero o chaveiro que brilha, tá?”.

Contrariando a lição de 99% dos pais, fomos com ela até a loja de brinquedos e em meio a tantas ofertas os olhos dela brilhavam, mas ela já entendia que não poderia ter tudo, nem ali, nem na vida. E o tal chaveiro tornou-se uma analogia da vida para que ela entendesse o preço das coisas e o valor de nossos esforços: “Esta boneca é tão cara que 4 delas daria para pagar o aluguel do nosso apartamento, Gi”. Ela, meio que com carinha de dúvida sobre o que era aluguel, mas entendendo que era algo importante para que ela pudesse morar onde morava, respondia: “Nossa, eu gosto de morar lá e tem piscina e play. Melhor do que uma boneca que é igual a uma que já tenho. Só muda o cabelo e a roupa”.

Neste mesmo ano nos mudamos para uma cidade com custo de vida mais barato e nos livramos de algo que tirava muito de nossos ganhos, podendo viver um pouco melhor, por isso decidimos fazer uma festa para comemorar simultaneamente o aniversário de 4 anos da Gigi, nossa nova fase de vida, nossa casa nova que era muito maior e melhor que o apartamento que morávamos e o fato dela ter aprendido a ler e escrever em casa. Foi uma festa e tanto!

Não queríamos nunca que ela achasse que estávamos mudando nossas filosofias de vida, para que, caso as coisas voltassem a ficar difíceis, não tivéssemos que tirar dela todo aquele ar de “agora você pode tudo”.Mesmo assim, Gigi não foi uma princesa. Gigi escolheu o tema “Backyardigans” e eu comprei para ela um vestido combinando com a decoração, bem com cara de menina de 4 anos, mas nada de princesa.

Parecia uma profecia, pois um ano e meio depois Luciano foi assassinado e minha vida desmoronou. A empresa, que dependia dos conhecimentos técnicos dele para sobreviver, foi perdendo clientes, a pessoa que se prontificou a me ajudar acabou pegando para si os clientes restantes e eu passei a viver praticamente de favor do meu pai.

Gigi nunca viajou, nunca teve roupa da Lilica Repilica, nunca usou tênis de marca, nunca teve presentes caros. E agora é que não teria mais, mesmo. Além da dor de perder um pai tão presente, tão bom, tão dedicado, ela também teve que enfrentar a dor de lidar com uma mãe traumatizada, jogada na cama, incapaz de assimilar o que aconteceu e, claro, experimentar da absoluta pobreza financeira, aquela onde se não fossem avós e tios, ela poderia nem ter o que comer, onde dormir, o que vestir. E ela tinha só cinco anos.

Mesmo assim Gigi nunca se abalou, jamais deixou de sorrir e depois de alguns natais e aniversários sem ganhar presente nenhum da mamãe, repensei o acordo que Luciano e eu tínhamos de que o melhor presente sempre teria que ser o nosso:

Se fosse assim, ela teria passado uns 3 ou 4 natais e aniversários sem ganhar nada, pois eu realmente nunca podia dar nada de presente, a não ser um chaveiro que brilhava de R$ 5,00. Então claro que tive que rever isso e aceitar que os melhores presentes não viriam de mim, mas que eu teria que ensina-la que ainda assim, aquilo não seria o padrão de vida dela. Ensina-la a ser grata, mas nunca esperar e nem achar que fosse obrigação de ninguém.

A questão nunca foi quem dava o melhor presente, mas foi a importância de ensiná-la do que se tratam os presentes: cada um dá o que pode, o melhor possível. E também a ensinei, sem perceber, que é preciso que ela aprenda a lidar com as frustrações da vida, que elas existirão para todos e que para muitos, elas são tão difíceis justamente porque nunca tiveram dos pais a oportunidade e a confiança de que encontrariam o próprio jeito de encará-las e lidar com elas.

Hoje, Gigi tem 13 anos e, claro, é uma adolescente chata, mas não chega nem aos pés da chatice de 90% das demais pessoas que passam por essa fase, pois ela entende que não é nem nunca foi uma princesa e que a vida é cheia de ofertas que nos enchem os olhos e mais cheia ainda de “nãos” que nos enchem de frustrações, com as quais nós temos que lidar.

Agradeço todos os dias pela filhota que tenho, pela minha moleca companheira e cheia de consciência, pois é por conta disso que ela entende que é mil vezes melhor e mais vantajoso para ela ser resiliente, se adaptar e mudar a si, do que viver uma vida toda querendo ser especial e exigindo que o mundo mude tudo por onde ela passar ou que as pessoas finjam não ver o que veem, nem sintam o que sentem.

Só sei que quando eu morrer, seja hoje ou daqui 100 anos (espero que daqui uns 50), saberei que apesar de muitos presentes e roupas baratas, ela saberá se virar a qualquer situação, pois não se deixa abater pelas frustrações. Nesse caso, me considero orgulhosa por ter ensinado a ela uma lição que dói na alma das mães, por isso poucas encaram ensinar: “Minha filha não é nem nunca foi uma princesa”.