Daddy também tem pai • Mãe de Adolescente

Daddy também tem pai

Lendo algumas matérias sobre pessoas que não querem ter filhos ou que reclamam por terem anulado a vida depois do nascimento de um, confesso que me sinto meio incomodado, mas não tenho com tirar a razão das pobres incautas criadas na base do leite com pera.

Criar filhos não é fácil.

Pelo contrário, é complexo, arriscado, brutal e em certos aspectos, os pais fazem pouquíssima ou nenhuma ideia do que estão fazendo.

Perece idiotice, afinal temos nossos pais para nos ensinar sobre o dia-a-dia com os pequenos, médicos para indicar como fazer quando adoecem, livros sobre o assunto – o do Delamare é ótimo e me salvou de muito aperto – nutricionistas, terapeutas, amigos, etc.

Mas na prática não é bem assim.

Cada filho é um ser diferente com necessidades físicas e psicológicas distintas.

O que agrada a um, irrita o outro.

A doença de um pode não afetar o outro, e, principalmente, a forma de educar e mostrar o mundo para um filho jamais se aplicará a qualquer outro.

Só saberíamos criar um filho com a certeza de que estaríamos corretos se o Delamare voltasse do além e escrevesse um livro para cada um dos que nascessem e outro para cada faixa de idade na medida em que fossem crescendo.

“Ah… Mas no caso da educação dos filhos e só dar o exemplo”.

Aí você que estudou a vida toda, inclusive compartilhando com o trabalho e tendo os filhos presenciado tudo, tem em casa um filho extremamente estudioso e outro que não quer bulhufas com escola.

Pode tentar explicar o porque disso, eu espero…

E eu que estudei a vida toda tive um pai que só fez até a quarta série?

Qual foi o exemplo?

Não estou defendendo que o exemplo dos pais não seja fator importante na criação dos filhos.

É, sim, mas não acontece de forma tão simples como alguns possam imaginar.

Já que toquei no assunto, vou falar um pouco sobre meu velho.

Meu pai sempre foi de pouquíssimas palavras.

Era econômico ao falar, mas extremamente direto.

Eufemismo pra bruto, vocês sabem disso.

Lembro de uma ocasião em que ele plantava milho e feijão numa pequena roça que ele tinha – sim, ele foi agricultor – e eu olhando para aquele plantadorzão de soja de Goiás, num orgulho sem tamanho, quando ele se escorou na enxada, me olhou fixo e perguntou: “Quando crescer, você quer este roçado pra você plantar?” Respondi que sim, claro. “Você vai é estudar, rapaz.”

E não disse mais nada.

Nunca esqueci disso.

 

E ele e minha mãe moveram céus e terra para que eu estudasse.

Eu tinha oito anos, quando eles me deixaram aos cuidados de umas tias queridas que moravam numa cidadezinha próxima para eu estudar.

O local era distante 15 quilômetros da fazenda onde morávamos e ele me levava e me buscava de bicicleta toda semana.

Sempre calado, taciturno, mas tudo o que fazia eu sabia que era por mim.

Depois, meus pais se mudaram pra cidade, quando morei mais uns dois anos com eles.

Na época, eu tinha uns 11 anos.

Quando fiz a oitava série, eles perceberam que eu não teria futuro na cidadezinha e me exportaram para Fortaleza, também para estudar, morando na casa de uma tia que virou minha segunda mãe.

Passei a maioria da minha adolescência e vida adulta longe dos meus pais e senti muito a falta deles, mas me coloco no lugar deles e imagino e dor que sentiram em decidir pelo meu futuro ou minha presença.

Eu morreria se meus filhos não estivessem aqui ao meu lado, mas ainda não tenho certeza se faço melhor que eles em manter meus filhos junto de mim.

Father, Padre, Père, Vater, Vader, Отец, Far, Kohake, Abba, Bappa, Tayta, Papa, Otac… @noobdubi @DitosDP | Fortaleza, Brasil

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